Conheça o enredo do GRESV Morro do Esplendor para o Carnaval 2018

MORRO DO ESPLENDOR
Jorge Ben Jor – O Poeta Urbano e Suburbano

Do sonho que bem mais parece uma realidade de uma típica noite de verão carioca, com a lua cheia, morada de São Jorge, brilhante, cintilante, com sua grandeza, mas que beleza! Estamos em fevereiro e tem carnaval. Nessa apoteose, com o poder do algo mais e da alegria, o Morro do Esplendor o aguarda com sua quadra toda iluminada, preparada, com a presença de todos que ali estão: os baluartes, compositores, desde os fundadores à nova geração, passando pelo nosso casal e a bateria, com seu mestre e ritmistas. Ninguém queria ficar de fora desse grande encontro. Todos arrumados, como de costume, mas era nítida no ar uma mistura de ansiedade com puro prazer, o brilho no olhar. Não era preciso falar nada, todos o aguardavam com as mesas de toalhas azuis e brancas impecáveis e o pavilhão tremulando ao fundo. Estávamos prontos para receber nosso convidado tão ilustre.
A conversa já estava bem avançada, apalavrada, mas faltava esse contato humano, o olho no olho, o calor e a sinergia, a troca de energia com a Escola e seu futuro homenageado. Era o que todos esperavam e, já madrugada adentro, todo de branco discreto e silencioso, eis que surge, anunciado com toda honra para os presentes, Jorge Ben Jor! Salve Simpatia! Uma das mais completas e transparentes traduções do Brasil, dono de uma sonoridade inconfundível, estamos diante do Poeta Alquimista, que é a mistura do samba, batuque e swing. África-Brasil. Atravessou todos os movimentos musicais do país: Bossa Nova, Jovem Guarda, Tropicalismo. Construtor de imagens, personagens, melodias que estão no imaginário popular; para-raio do sentimento profundo da humanidade, tradutor e criador, cercado de mistério e revelação. Por onde passa nesse mundo faz amigos e deixa marca, arrasta, movimenta a multidão: sabe como ninguém animar a festa! Em uma conversa descontraída, desinibida, sem protocolo ou compromisso, a felicidade é contagiante e Jorge vai entrando. Com a união de seus ancestrais, a força da raiz africana de sua mãe com a raiz do samba e da malandragem de seu pai, nasce Jorge que diz:
“Eu sou mesclado, porque misturo com minha mãe, a África, e como meu pai, o Rio, Brasil!” – e já emenda – “meu pai e minha mãe se conheceram na Gafieira Elite, dançaram muito na Estudantina também. Arrastaram as sandálias, arrastaram até gastar, madrugada adentro, até o casamento” – e dá risada. – “De meu pai aprendi a malandragem, o lado filósofo e o samba de verdade. Meu pai me levou pela primeira vez, quando menino, no Salgueiro, para sentir de perto o que já ouvia em casa. Foi amor à primeira vista, fiquei fascinado! Era uma coisa diferente. Aquilo me deixou assim… em transe! Meu pai foi compositor, teve gravadas três músicas de Carnaval. Sempre tive música boa em casa. Através da minha mãe fui presenteado com a força e a cultura negra bruta africana, e com muita música etíope de sua terra, muito batuque. Eu era criança e ouvia esse som. Eles falavam numa língua que eu não entendia e um batuque que mexia comigo. Isso foi misturando tudo.”
Jorge é raiz, é mistura transformada em originalidade. Tem o estilo único, é original. Jorge continua nos contando momentos de sua vida e obra que se faz misturar, que se entrelaça, nos dando uma aula de simplicidade, alegria e simpatia, e um futuro otimista!
A velha guarda já o esperava. Jorge reverencia e é reverenciado, momentos que entram pra eternidade. A bateria se anima e com a pura cadência começa a batucar. Eufórico, Jorge cantarola e se acomoda para uma livre prosa, tomado pela felicidade que ali todos sentiam. Continua.
“A cegonha me deixou em Madureira de presente para minha mãe, Silvia Lenheira. Terra boa de gente trabalhadeira, nasci no berço do samba e de lá fui pra o Rio Cumprido, bairro simpático e popular. Sou cristão, católico e carioca. Só não sou romano porque nasci no Rio de Janeiro e também carrego minha fé nos orixás, essa é a mística. Salve Ogum! Eu, desde os treze anos, fiz seminário menor. Tinha aulas de canto, teclado e órgão. Isso tudo misturou com o que eu ouvia fora, desde o samba, rock,música afro e brasileira.
Comecei a fazer minhas letras na escola. Eu sempre escrevi muito. Modéstia à parte, eu sempre fui bom. Escrevia grandes redações, escrevia coisas que eu gostava e aí, depois, eu passei a cantarolar essas coisas todas. Quase fui jogador de futebol; joguei no infanto-juvenil do Flamengo. O futebol era bom, mas eu tinha que correr pra trabalhar, estudar e ajudar a pagar as contas. Lá não ganhava nada, não era remunerado. Até que apareceu a música. Ganhei meu primeiro pandeiro aos quatorze anos de idade. Participava como tocador de pandeiro nos blocos de carnaval. Aos dezoito, ganhei meu primeiro violão de minha mãe e comecei a me apresentar em festas e boates, tocando Bossa Nova e Rock and Roll. Fui parar no Beco das Garrafas; frequentava o Beco aos domingos, tocando com os músicos da mais alta qualidade, já famosos. A gente começava às cinco da tarde e ia até meia-noite. Foi nesse palco que cantei meu primeiro sucesso MAIS QUE NADA. Já foi uma mistura, né? Este samba que é misto de maracatu.”
O Morro não se segura e começa a cantarolar: “ô ôôôô ariá raio, oba, oba, oba.” Parecia até ensaiado. Jorge vem junto, canta e diz:
“É dessa magnética que estou falando. Gosto de cantar, compor e escrever do que amo: samba, carnaval, o meu Salgueiro, futebol… o Maracanã foi palco de muitas de minhas inspirações. o circo, ah o circo! Foi sempre presente na minha vida. Era minha maior diversão, sempre gostei, principalmente dos palhaços e daquela magia toda. Fui a todos os circos no Rio de Janeiro. Também escrevi sobre as mulheres, claro! Tenho minhas musas inspiradoras: Lorraine, Denize, Berenice são musas mesmo. Existem de verdade. Mas minha Maria, Domênica, Dumingaz ou simplesmente Tereza sabe que ela é única, ela é muito companheira. Eu sou Fla Fla ela é Me Me e nos entendemos muito bem! Sempre sei por onde anda minha Tereza”. Com esse seu jeito contagiante, Jorge, em estado puro, prossegue: “Pelo sangue que carrego e minha identificação com a África, componho de maneira natural músicas com personagens negros, sendo cantadas de maneira bela, forte e singela. Uma coisa que gratifica. Em Zumbi, falo de maneira forte, mas nem por isso desprovida de beleza. Essa força negra me inspira. Canções como XICA DA SILVA, UMBABARAUMA, personagens negros que marcaram a história cotidiana ou mundial, foram compostas com esse sentimento.

Me considero um arquimista, que é aquele que estuda, que sabe como acontecem as coisas, admirador da alquimia. Isso, musicalmente, tem sido muito bom. Essa espirituosidade na hora de compor, aquela tenacidade, sagacidade, perseverança. Os livros de alquimia me ensinaram isso. O próprio Nicolas Flamel me inspirou: alquimista fantástico, meu muso, o namorado da viúva que evita qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido. Traz com ele agricultura celeste, onde a planta é semeada e colhida de acordo com o Sol, a Lua e as estrelas, numa época tal, e com essas plantas curava-se as pessoas. E vieram os deuses astronautas, de outras galáxias.
Deles nós herdamos uma herança cósmica quase infinita. Essas são filosofias fascinantes. Canto e conto historias sobre deuses, príncipes, gente da gente,que me orgulha, que me faz evoluir. Mas, às vezes eu penso: ‘Pô, não pode ser muito intelectual, tem que misturar. Minha música é urbana e suburbana Procuro fazer um ‘Som Universal’’’.
Fiz muito sucesso lá fora, isso é algo legal que regozija. Dos Estados Unidos ao Japão, conheci o mundo cantando. Em um festival na África do Sul fui o único artista fora do continente a estar presente. É de emocionar! Ter minhas canções gravadas por artista de várias gerações, de todas as correntes musicais, é um grande reconhecimento, que alimenta, impulsiona.

Nesse caminho não estou sozinho: sou bandleader, toquei a vida inteira com gente de primeira. Meus primeiros discos foram gravados com um conjunto que tocava jazz, o Meireles e os Copa 5. Tive a companhia do ,Admiral Jorge V, Trio Mocoto, e o conjunto que está comigo desde 75, a Banda do Zé Pretinho.
Minhas músicas também têm protesto e houve muita censura, mas protesto tem que ter, não dá pra ver o erro diante dos nossos olhos e ficar calado. Minha música pode soar triste, mas ela sempre tem um final feliz. Sempre proponho isso. A gente tem que falar que tristeza existe, mas ela pode acabar e virar felicidade. É isso que acredito para o nosso país tropical, o no nosso Patropi, abençoado por Deus e bonito por natureza. Tenho fé que chegaremos lá.”
Santa Clara clareou o dia e o Morro que, de pé, aplaude com profunda admiração, emoção e respeito o sim de Jorge Ben Jor! Os fogos anunciam a confirmação do enredo, que nada mais é que a tradução dessa admiração em forma de uma grande homenagem no desfile na avenida virtual, com o fio condutor dessa rica mescla, miscigenação incandescente da vida e obra de Jorge Ben Jor que se define “O Poeta Urbano e Suburbano”. Entre aplausos e lágrimas de emoção, Jorge abraça um a um que se faz presente na quadra, desejando ao Morro do Esplendor um excelente carnaval!
Jorge fecha:
“Estou contente, mas ainda tenho muito caminho para percorrer. Estou sempre ouvindo tudo para ver o que está acontecendo, para não ficar estacionado. Tem arte que só serve para mostrar seu ego. Eu quero uma arte com poesia, alegria, harmonia, energia e simpatia”.

Jorge se vai, mas não sem antes de pedir a benção para a imagem de são Jorge no altar do Morro, e em baixa voz diz:
“Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge “.
Imbatível ao extremo, assim é Jorge. Viva Jorge! Salve Jorge!
A família agradece. Salve, simpatia!

Sinopse desenvolvida por Rodrigo Said

Foto de perfil de Carnaval Virtual

Author: Carnaval Virtual

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