{"id":1499,"date":"2015-11-01T18:09:04","date_gmt":"2015-11-01T18:09:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/?p=1499"},"modified":"2015-11-24T18:34:09","modified_gmt":"2015-11-24T18:34:09","slug":"recanto-do-beija-flor-apresenta-sua-sinopse-para-o-carnaval-virtual-2016-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/recanto-do-beija-flor-apresenta-sua-sinopse-para-o-carnaval-virtual-2016-2\/","title":{"rendered":"Recanto do Beija-Flor apresenta sua sinopse para o Carnaval Virtual 2016"},"content":{"rendered":"<p>Menininha do Gantois, Menininha do Toror\u00f3: Recanto de \u00c1gua doce e f\u00e9rtil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Oxum-abutre trouxe a chuva de volta<\/em><br \/>\n<em>E com ela a fertilidade do solo e os alimentos<\/em><br \/>\n<em>E gra\u00e7as a Oxum a humanidade n\u00e3o pereceu.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(Prandi, A mitologia dos Orix\u00e1s, p. 343)<\/em><\/p>\n<p>Uma das hist\u00f3rias mais bonitas que nos foram trazidas pela for\u00e7a das vozes dos negros aqui chegados d`\u00c1frica remete-nos a abdica\u00e7\u00e3o de Oxum de seus atributos mais conhecidos: a beleza, a vaidade e todas as efemeridades atrelada a Ela (Oxum).<\/p>\n<p>Rezam as vozes que no in\u00edcio dos tempos do mundo, os orix\u00e1s se rebelaram contra Olodumare-Senhor Supremo. Eles alegavam que o Olodumare vivia muito distante. Uma dist\u00e2ncia espiritual, afetiva e geogr\u00e1fica para com os pr\u00f3prios orix\u00e1s e os homens. Decidiram n\u00e3o mais prestarem obedi\u00eancia ao Senhor Supremo e tamb\u00e9m destron\u00e1-lo, distribuindo entre eles o poder do ax\u00e9. Olorum irado tomou medidas dr\u00e1sticas: retirou a chuva da terra e a prendeu no c\u00e9u. O Ay\u00ea foi tomado por uma terr\u00edvel seca. Com a seca veio a fome e com a fome a morte. O ronco das barrigas e a palidez das faces come\u00e7aram a falar mais alto que o orgulho dos rebeldes e seus planos de levante. Os orix\u00e1s passaram dias em reuni\u00f5es e resolveram, por unanimidade, ir a Olodumare implorar perd\u00e3o para que a vida na Terra voltasse ao normal. Eles tinham, no entanto, um imenso problema: como chegar \u00e0 inalcan\u00e7\u00e1vel e distante morada do Senhor Supremo? Enviaram p\u00e1ssaros mensageiros, mas todos pereciam exaustos, sem sequer chegarem perto da casa de Olorun. A seca e a fome devastavam a Terra e seus habitantes. Foi quando Oxum resolveu intervir. A vaidosa Oxum transformou-se num bel\u00edssimo pav\u00e3o o que causou gargalhada no conc\u00edlio de Orixas.Um tremor de gargalhadas sacudiu a Terra: &#8220;Vais acabar se machucando, gracinha!&#8221;. E l\u00e1 se foi Oxum-pav\u00e3o seguindo em dire\u00e7\u00e3o ao Sol, voando as alturas do Orum em busca do Pal\u00e1cio do Senhor. Mesmo t\u00e3o exausta Oxum estava determinada em sua miss\u00e3o. O sol foi enegrecendo suas lindas penas de pav\u00e3o. As penas da cabe\u00e7a ficaram ressequidas, o pav\u00e3o tinha queimaduras em todo o corpo. Quase morta, Oxum, a ave em estado miser\u00e1vel, chegou \u00e0 porta do pal\u00e1cio de Olodumare. O Senhor Supremo se compadeceu da pobre ave e a alimentou e deu \u00e1gua. Olorun perguntou a ave feia, sem nenhuma beleza, o porqu\u00ea de tal jornada. A ave, agora transfigurada num feio abutre, explicou ao senhor o que estava ocorrendo no Ay\u00ea. Descreveu homens morrendo de inani\u00e7\u00e3o, a falta da \u00e1gua e o total caos da Terra.<\/p>\n<p>Agora damos voz \u00e0s pr\u00f3prias vozes de \u00c1frica:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Olodumare, penalizado com a pobre ave, deu-lhe a chuva<\/em><br \/>\n<em>Para que ela devolvesse \u00e0 Terra.<\/em><br \/>\n<em>E nomeou o abutre mensageiro seu,<\/em><br \/>\n<em>Pois s\u00f3 ele vence a inalcan\u00e7\u00e1vel dist\u00e2ncia em que est\u00e1 Olodumare.<\/em><br \/>\n<em>O abutre ent\u00e3o voltou \u00e0 Terra trazendo a chuva.<\/em><\/p>\n<p>O enredo aqui proposto conta a hist\u00f3ria de M\u00e3e Menininha do Gantois. Uma das Oxuns mais bonitas encarnadas nesse Ay\u00ea (Brasil) de fomes, desnutri\u00e7\u00f5es, mis\u00e9rias carnais e espirituais de v\u00e1rios tipos.<\/p>\n<p>M\u00e3e Menininha narrava a seus ouvintes, de forma insistente, a hist\u00f3ria acima retratada. Para salvar a humanidade Oxum teve que deixar de lado sua beleza, vaidade e todas as efemeridades. A jornada de dor e salva\u00e7\u00e3o transformou o lindo pav\u00e3o num miser\u00e1vel abutre. M\u00e3e Menininha insistia no fato inexor\u00e1vel de que a vida \u00e9 uma jornada dif\u00edcil, mas temos que nos adaptar a seus sinuosos caminhos. Como a \u00e1gua doce que se adapta aos cursos do rio. \u00c1gua doce, por\u00e9m inquebrant\u00e1vel, como a pr\u00f3pria incans\u00e1vel Oxum na busca do perd\u00e3o de Olorum.<\/p>\n<p>M\u00e3e Menininha nasceu Maria Escol\u00e1stica da Concei\u00e7\u00e3o do Nazar\u00e9. Nasceu sob o signo de apreens\u00e3o da \u00e1gua: aqu\u00e1rio. Encarnou no final do s\u00e9culo XIX na cidade de S\u00e3o Salvador, seis anos ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos. A \u00fanica maneira de obter \u00e1gua, no final do s\u00e9culo XIX, era a extenuante caminhada a sagrada fonte do Toror\u00f3 (regi\u00e3o que hoje \u00e9 conhecida pelo est\u00e1dio da Fonte Nova). Era no caminho di\u00e1rio para a fonte que os negros e outros populares narravam hist\u00f3rias de \u00c1frica, do Brasil, desse e de outros mundos. Foi nessa peregrina\u00e7\u00e3o di\u00e1ria que teve seus primeiros contatos com as hist\u00f3rias da bela, doce e destemida Oxum. Como narram as vozes ancestrais foi Olorun que mandou essa filha de Oxum &#8220;tomar conta da gente e tudo cuidar&#8221;&#8230;Ela vem-nos sob a forma de estrela, forma de abutre, forma de Sol, forma de \u00e1gua&#8230; O p\u00e1ssaro da prosperidade, o p\u00e1ssaro da fertilidade, o p\u00e1ssaro da beleza da abnega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e3e menininha irradiava do\u00e7ura e beleza, mas tamb\u00e9m era en\u00e9rgica e s\u00e1bia, sem ser arrogante&#8230; Desde os oito anos de idade se entregou aos encantados e foi aben\u00e7oada por eles. De apar\u00eancia franzina veio o carinhoso diminutivo &#8220;menininha&#8221;. O &#8220;m\u00e3e&#8221; vem da fun\u00e7\u00e3o espiritual que religa homem ao plano espiritual. Uma concilia\u00e7\u00e3o barroca, baiana, brasileira, por excel\u00eancia da figura da &#8220;m\u00e3e s\u00e1bia&#8221;, com a figura da &#8220;menina pura&#8221;. Da\u00ed vem a for\u00e7a inabal\u00e1vel de seu carisma. M\u00e3e menininha viveu nessa terra de paradoxos encantando um mundo desencantado, purificando terras inf\u00e9rteis com suas mensagens e conselhos de esperan\u00e7a e sabedoria infinitas.<\/p>\n<p>Como encantada que habita esse e outros mundos M\u00e3e Menininha tinha um sonho recorrente. No seu universo on\u00edrico uma linda menininha de cabelos loiros vinha cham\u00e1-la para brincar. Ela aceitava e as duas iam juntas para a praia. O estimado brinquedo era sempre o mesmo: os b\u00fazios. Segundo sua neta M\u00f4nica Millet, M\u00e3e Menininha foi introduzida nos jogo dos B\u00fazios, com sua professora Oxum que lhe aparecia nos seus sonhos.<\/p>\n<p>Foi a quarta Iy\u00e1lorix\u00e1 do Terreiro do Gantois aos 24 anos de idade e a mais proeminente Iy\u00e1lorix\u00e1 brasileira. Situado num local alto e cercado por um bosque o terreiro do Gantois ficava mais protegido das recorrentes incurs\u00f5es policiais \u00e0s religiosidades de ascend\u00eancia africana. Eram tempos nos quais religi\u00f5es n\u00e3o cat\u00f3licas eram &#8220;caso de pol\u00edcia&#8221;. A figura da &#8220;m\u00e3e menina&#8221; foi essencial para a populariza\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9 no Brasil.<\/p>\n<p>Samba e religi\u00f5es n\u00e3o oficiais t\u00eam hist\u00f3rias an\u00e1logas no Brasil. \u00c9 a partir dos anos 1930 que religi\u00f5es, ritmos e o que ficou conhecido como &#8220;cultura popular&#8221; s\u00e3o reconhecidos e legalizados pelo Estado brasileiro. Se no mundo do samba intelectuais se encontram com sambistas nesse per\u00edodo, o mesmo ocorre com a intelectualidade baiana para com as religi\u00f5es de matriz africana. M\u00e3e Menininha fez do Terreiro do Gantois uma festejada morada de diplomacia. Recebia em sua morada de paz m\u00e9dicos, presidentes da rep\u00fablica, diplomatas, artistas, intelectuais, padres, populares, sempre ofertando-lhes, com paci\u00eancia, carinho e alegria, seus s\u00e1bios conselhos. Tinha voz meiga e palavras gentis. Transmitia a oralidade ancestral da sabedoria afro brasileira a todos com generosidade infinita. M\u00e3e de santo, m\u00e3e do Gantois, M\u00e3e do Brasil.<\/p>\n<p>M\u00e3e Menininha conviveu com homens que fizeram da Bahia o Brasil.Ela tamb\u00e9m \u00e9 uma das fundadoras dessa Bahia orgulhosa de suas, de nossas coisas. M\u00e3e e amiga de toda uma gera\u00e7\u00e3o de excepcionais expoentes da cultura local\/nacional, foi representada nas penas do gigante Jorge Amado, nas vozes-letras de Caymmi, Caetano, Beth\u00e2nia e tantas outras encantadas vozes e retratada nos quadros de Caryb\u00e9 (argentino que se converteu ao &#8221; modo de ser&#8221; brasileiro ao se apaixonar pelos gostos, coisas e encantos da Bahia). Jorge narrava a Bahia, Caymmi cantava, Caryb\u00e9 desenhava e M\u00e3e Menininha aben\u00e7oava&#8230;<\/p>\n<p>M\u00e3e Menininha freq\u00fcentava a missa semanalmente. Um exemplo de humildade e busca freq\u00fcente pela sabedoria.Quando assumiu a casa do Gantois sabia das dificuldades do mundo. Esteve temerosa, com receio da jornada a ela dada como miss\u00e3o, como todo humano em vida. Viveu toda sua vida escutando pessoas com suas fraquezas humanas. Deu a todos conforto, amenizou suas dores, irrigou seus solos desesperados. Ofereceu \u00e1gua doce, \u00e1gua f\u00e9rtil e jamais viu num ser humano terreno inf\u00e9rtil. Cultivou com afinco a humanidade como lhe designou Olorum.<\/p>\n<p>Em 2016 o Brasil completa 30 anos sem M\u00e3e Menininha por essas terras. Essas tr\u00eas d\u00e9cadas n\u00e3o enferrujaram seus ensinamentos, n\u00e3o calaram sua voz meiga, sua figura de m\u00e3e que escuta, acolhe e aconselha. Se a carne se foi com um processo natural que estamos sujeitos todos, da vida e morte, o verbo continua&#8230; Verbo e vozes que continuam a contar, a cantar e a narrar a hist\u00f3ria dessa m\u00e3e menina da \u00c1frica, da Bahia, do Brasil, do mundo. Transfigurada numa revoada de belos p\u00e1ssaros brancos, assim como Oxum ao se transformar em pomba liberta da pris\u00e3o de Xang\u00f4, Menininha do Gantois sobrevoa o Ay\u00ea dos vivos, transmitindo-nos toler\u00e2ncia, paz, e o ax\u00e9 a esse mundo, ainda desencantado. Hoje \u00e9 carnaval. Hoje a Recanto \u00e9 do Gantois. A Recanto do Beija Flor \u00e9 o lar da Oxum mais bonita.<\/p>\n<p>Cantemos e oremos:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Olorum quem mandou essa filha de Oxum<\/em><br \/>\n<em>Tomar conta da gente e de tudo cuidar<\/em><br \/>\n<em>Olorum quem mandou e\u00f4 ora i\u00ea i\u00ea \u00f4<\/em><\/p>\n<p><strong>SETORIZA\u00c7\u00c3O DO DESFILE<\/strong><\/p>\n<p><strong>SETOR 1:<\/strong> Hist\u00f3ria e narrativas m\u00e1gicas se misturam para explicar o mundo. A chuva trazida ao Ay\u00ea (a Terra) por Oxum \u00e9 associada \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o (1888). M\u00e3e Menininha vem ao mundo em 1896 e vive numa Salvador com marcas profundas de 4 s\u00e9culos de escravid\u00e3o. Retratamos nesse setor a Salvador da inf\u00e2ncia de M\u00e3e Menininha. Salvador era uma cidade pujante, com a forte presen\u00e7a do Candombl\u00e9 e suas m\u00faltiplas facetas.<\/p>\n<p><strong>SETOR 2:<\/strong> Esse setor se inicia com uma narrativa on\u00edrica: o sonho recorrente de M\u00e3e Menininha. Destacamos a repress\u00e3o oficial as religi\u00f5es de matrizes afro-brasileiras durante a Primeira Rep\u00fablica (1889-1930). Encerramos esse setor com uma peculiaridade baiana: era comum, como ainda \u00e9, membros da elite frequentarem as casas de Candombl\u00e9. Essa ala vem com um pol\u00eamico nome: &#8220;a elite batuqueira, a elite macumbeira&#8221;.<\/p>\n<p><strong>SETOR 3<\/strong>: Foi na d\u00e9cada de 1930 que o candombl\u00e9 foi &#8220;oficializado&#8221; como uma religi\u00e3o &#8220;genuinamente&#8221; brasileira. Essa oficializa\u00e7\u00e3o se deu no bojo de reconhecimento da cultura popular como cultura nacional. Cabe lembrar que foram fundamentais a esse reconhecimento as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es do movimento regionalista durante os anos de 1920, 1930 e 1940. Esse reconhecimento foi uma conquista de pelo menos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Nesse momento de que era moderno e &#8220;nosso&#8221; ser &#8220;mesti\u00e7o&#8221;, as manifesta\u00e7\u00f5es culturais ligadas \u00e0 \u00c1frica passam a ser bem quistas. O candombl\u00e9 al\u00e9m de uma religi\u00e3o t\u00edpica da Bahia passa a ser express\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p><strong>SETOR 4:<\/strong> O quarto setor come\u00e7a em festa no mundo dos vivos e termina em festa no mundo espiritual. M\u00e3e Menininha foi l\u00edder do Gantois e do Candombl\u00e9 ajudando a popularizar a religi\u00e3o da Bahia para o Brasil e do Brasil para o mundo. O candombl\u00e9 \u00e9 considerado uma das religi\u00f5es mais: &#8221; tolerantes e flex\u00edveis religi\u00f5es do mundo&#8221; (Dicion\u00e1rio do Brasil Imperial. p.115). M\u00e3e Menininha teve aux\u00edlio de duas gera\u00e7\u00f5es de baianos que ajudaram a tornar a Bahia um dos estados mais eminentes do Brasil. A primeira gera\u00e7\u00e3o \u00e9 formada pela trinca: Jorge Amado, Caryb\u00e9 e Dorival Caymmi. O primeiro escreveu a Bahia, o segundo a desenhou em charges inesquec\u00edveis e o terceiro a cantou com voz marcante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Menininha do Gantois, Menininha do Toror\u00f3: Recanto de \u00c1gua doce e f\u00e9rtil&#8230; Oxum-abutre trouxe a chuva de volta E com ela a fertilidade do solo e os alimentos E gra\u00e7as a Oxum a humanidade n\u00e3o pereceu. 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