{"id":1777,"date":"2016-01-18T23:57:10","date_gmt":"2016-01-18T23:57:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/?p=1777"},"modified":"2016-01-18T23:57:10","modified_gmt":"2016-01-18T23:57:10","slug":"bohemios-divulga-sua-sinopse-para-o-carnaval-virtual-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/bohemios-divulga-sua-sinopse-para-o-carnaval-virtual-2016\/","title":{"rendered":"Boh\u00eamios divulga sua sinopse para o Carnaval Virtual 2016"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Malunguinho me abra os trabalhos<\/em><br \/>\n<em>Malunguinho me abra a mesa<\/em><br \/>\n<em>Malunguinho me abra os trabalhos<\/em><br \/>\n<em>Malunguinho me abra a mesa<\/em><br \/>\n<em>Quero um ponto para esta casa<\/em><br \/>\n<em>Quero um ponto de defesa<\/em><br \/>\n<em>Quero um ponto para os disc\u00edpulos<\/em><br \/>\n<em>Quero um ponto de defesa.<\/em><br \/>\n<em>Sobonir\u00ea mafa Malunguinho&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Por Mestre de Jurema Claudio de Oliveira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da luz, quando ainda n\u00e3o era col\u00f4nia de ningu\u00e9m, as terras brasileiras j\u00e1 irradiavam encantaria. Malunguinho, rei da luz, j\u00e1 guiava os caminhos de quem dele se socorria. Os \u00edndios, leg\u00edtimos primeiros habitantes, cultivaram uma liturgia verde, que se valia de frutas, ervas, cip\u00f3s, tudo que a natureza oferecia, para mant\u00ea-los em contato com o sagrado, consolidando a matriz do que aprendemos a chamar de f\u00e9 neste pa\u00eds. Assim, no plano dos encantados, a luz do Adjunto da Jurema, seguindo o mesmo caminho da luz do sol, se faz presente. Responde a cada invoca\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da chama de velas, da fuma\u00e7a de cachimbos, do badalar dos caxixins, surgindo em nossas vidas esperan\u00e7as, desembara\u00e7os e vit\u00f3rias em todos os caminhos.<\/p>\n<p>Quilombo &#8211; centro da glorifica\u00e7\u00e3o da liberdade t\u00e3o sonhada e conquistada por luta, sangue e l\u00e1grimas. Reuni\u00e3o dos irm\u00e3os, que, entregues \u00e0 dor, acharam em seu ref\u00fagio o alento t\u00e3o sonhado e querido para a derradeira reden\u00e7\u00e3o. Um congra\u00e7amento de v\u00e1rias pessoas, independente de etnias, respeitando as diferentes manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9. Nas terras pernambucanas, Quilombo do Catuc\u00e1, uma dinastia de bravos guerreiros, lutavam e lideravam seu povo pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravos sofridos e todos que padeciam pelas elites. Tornaram-se conhecidos por Rei Malunguinho (que significa camarada no dialeto malungo).<\/p>\n<p>Malunguinho defendia os interesses da liberdade dos irm\u00e3os negros, que viviam nas senzalas, liberdade de express\u00e3o contra a tirania da coroa portuguesa e a melhor distribui\u00e7\u00e3o das terras, para quem nada possu\u00eda. Por sua bravura na liberta\u00e7\u00e3o, dizia a todos que possu\u00eda uma chave m\u00e1gica que abria todas as correntes, destrancando os grilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Reza a lenda que quando o ex\u00e9rcito invadiu o Quilombo do Catuc\u00e1, o \u00faltimo dos Malunguinhos, Jo\u00e3o Batista foi ferido, mas n\u00e3o capturado. Conseguiu se esconder na floresta, onde foi resgatado pelos \u00edndios, curado pelo poder das ervas e a sabedoria ind\u00edgena. Desta forma, a soberania da ess\u00eancia negra com a cultura ind\u00edgena despertava a magia da ci\u00eancia m\u00edstica Jurema.<\/p>\n<p>Malunguinho, ent\u00e3o, aparece dentro da linha da Jurema como o principal vulto de seu culto. O contato de Malunguinho com a sabedoria ind\u00edgena alcan\u00e7a sua finalidade espiritual, tornando-se o guardi\u00e3o de sua chave. Libertos os cativos, guia-os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz para seguirem firmes em seu caminho. Toma conta desses caminhos, com a responsabilidade de destrancar as estradas, sendo ele o desbravador na linha da Jurema e fazendo a liga\u00e7\u00e3o entre o mundo dos vivos e os ancestrais da floresta.<\/p>\n<p>No culto da Jurema, Malunguinho \u00e9 uma entidade de grande poder, que se manifesta de tr\u00eas formas distintas. Malunguinho tem esse poder do Ex\u00fa, que representa o mensageiro, abrindo os caminhos, sendo o elo de liga\u00e7\u00e3o entre a Jurema e as pessoas. Al\u00e9m de ser o questionador, que fomenta a discuss\u00e3o. O caboclo quando traz o conhecimento ind\u00edgena, toda ritual\u00edstica com as folhas, as plantas, com a natureza. Mestre, quando traz o conte\u00fado de conhecimento, de gerenciar uma seara, determinar caminhos, solu\u00e7\u00f5es para determinados problemas que o ser humano enfrente cotidianamente. &#8220;Malunguinho \u00e9 uma entidade que fala pouco e n\u00e3o demora muito quando incorpora. Suas palavras s\u00e3o meio truncadas, como uma crian\u00e7a falando e a l\u00edngua mistura portugu\u00eas com outro idioma&#8221;.<\/p>\n<p>Malunguinho assumiu a miss\u00e3o que lhe fora reservada pela For\u00e7a Superior, ser o Adjunto da Jurema. Cumpriu sua miss\u00e3o de ser Mestre e Libertador, n\u00e3o apenas libertando os escravos presos na senzala, mas um libertador de esp\u00edritos aprisionados no cativeiro espiritual da ignor\u00e2ncia e ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>A Jurema antecede a chegada dos portugueses, um rastro da cultura tupi. \u00c9 um culto presente em varia\u00e7\u00f5es religiosas como o catimb\u00f3 e a umbanda. Caracteriza-se pela tomada de corpo por entidades espirituais, como mestres e caboclos. Das ra\u00edzes e cascas da planta jurema \u00e9 produzida uma bebida, o vinho da jurema, consumida ritualmente durante o culto. A mata \u00e9 a fonte do poder e m\u00edstica da Jurema. Antes de come\u00e7ar as cerim\u00f4nias, o grupo pede prote\u00e7\u00e3o a Malunguinho. &#8220;O povo pega um her\u00f3i popular, que existiu de verdade, guerreiro, l\u00edder dos negros e o coloca no Olimpo das divindades. Subir ao pante\u00e3o das divindades \u00e9, talvez, a maior homenagem que um povo pode prestar aos seus her\u00f3is&#8221;. Os rituais acontecem com as oferendas sendo colocadas no altar dedicado a Malunguinho, s\u00e3o aben\u00e7oadas atrav\u00e9s da fuma\u00e7a e a gira dos Mestres da Jurema.<\/p>\n<p>A louva\u00e7\u00e3o a Malunguinho representa a inclus\u00e3o de personagens negros, hist\u00f3ricos de fato, como grandes her\u00f3is, como Zumbi dos Palmares. Um momento de agrega\u00e7\u00e3o, trazendo a comunidade dos terreiros ao espa\u00e7o legitimado de coparticipante da hist\u00f3ria do Brasil, fugindo dos estere\u00f3tipos impostos pela minoria dominante que marginalizava os l\u00edderes negros. Malunguinho, em seu cosmos, vivo na alma do povo da Jurema, \u00e9 o alicerce para estas popula\u00e7\u00f5es sobreviverem a viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, racismo e intoler\u00e2ncia religiosa existentes em nossa sociedade.<br \/>\n&#8220;Donos da escrita, historiadores da elite tentaram reduzir a trajet\u00f3ria do povo negro aos documentos conhecidos, mas a oralidade rasgou o tempo, mesmo com todas as chacinas, persegui\u00e7\u00f5es da nossa religi\u00e3o. As palavras escritas continuam servindo ao lado mais branco desse pais, por isso n\u00e3o escreveremos esse t\u00edtulo e essa terra, ao menos dessa vez, vai continuar preta&#8221;.<\/p>\n<p>Sob\u00f4 Nir\u00ea Maf\u00e1!<br \/>\nObrigado senhores mestres e \u00edndios de minha Jurema.<\/p>\n<p>Salve a fuma\u00e7a!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Malunguinho me abra os trabalhos Malunguinho me abra a mesa Malunguinho me abra os trabalhos Malunguinho me abra a mesa Quero um ponto para esta casa Quero um ponto de defesa Quero um ponto para os disc\u00edpulos Quero um ponto de defesa. Sobonir\u00ea mafa Malunguinho&#8221;. 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