{"id":9394,"date":"2018-03-11T13:13:11","date_gmt":"2018-03-11T16:13:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/?p=9394"},"modified":"2018-03-11T13:15:52","modified_gmt":"2018-03-11T16:15:52","slug":"conheca-o-enredo-do-gresv-recanto-do-beija-flor-para-o-carnaval-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/conheca-o-enredo-do-gresv-recanto-do-beija-flor-para-o-carnaval-2018\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a o enredo do GRESV Recanto do Beija-Flor para o Carnaval 2018"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\">RECANTO DO BEIJA-FLOR<br \/>\nBAQUAQUA &#8211; VIS\u00d5ES DA LIBERDADE<\/h3>\n<p><a href=\"http:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/10-Recanto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9395 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/10-Recanto.jpg\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"960\" srcset=\"https:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/10-Recanto.jpg 680w, https:\/\/www.carnavalvirtual.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/10-Recanto-213x300.jpg 213w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por Andre Dubois<\/p>\n<p>Baquaqua nasceu foi criado na cidade de Zoogoo ou, como chamaram os franceses quatro d\u00e9cadas depois, Djougou. Sua cidade natal fica no atual Benin. A Zoogoo do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX era ainda desconhecida dos europeus, j\u00e1 que ficava numa regi\u00e3o mais central da Costa noroeste da \u00c1frica. Zoogoo era uma pr\u00f3spera cidade situada no meio da Rota D`Ouro. Regi\u00e3o de intenso interc\u00e2mbio comercial e de passagem de diferentes povos. Uma regi\u00e3o de muitas l\u00ednguas, culturas e cren\u00e7as! Um espa\u00e7o de muitos contatos!<\/p>\n<p>A Rota D\u00b4Ouro, como o nome sugere, levava \u00e0 regi\u00e3o v\u00e1rias caravanas de homens que desejavam enriquecer. O ouro n\u00e3o era a \u00fanica riqueza! Por ali os homens comercializavam alimentos, o marfim e a cultuada &#8220;noz de obi&#8221;- tamb\u00e9m conhecida como &#8220;noz de cola&#8221;.<\/p>\n<p>A cidade de Zoogoo era protegida por seis portais. Cada portal conta a genealogia de um povo que tinha voca\u00e7\u00e3o de guerreiro. O n\u00famero 6 era um n\u00famero sagrado para os moradores de Zoogoo. Assim como no ocidente acreditamos que os trevos de 4 folhas trazem sorte, os moradores da cidade natal de Baquaqua acreditavam que as &#8220;nozes de obi&#8221;, segmentadas em 6 partes, seriam s\u00edmbolos de sorte. Membros do pal\u00e1cio real da cidade usavam colares com nozes de seis esferas como s\u00edmbolos de poder, status e diferencia\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o isl\u00e2mica era preponderante na cidade de Zoogoo. Durante s\u00e9culos os califados \u00e1rabes no norte d\u00b4\u00c1frica expandiram o islamismo por diversas regi\u00f5es do continente. A cidade negra de Zoogoo tinha no Alcor\u00e3o seu livro de f\u00e9. A nobreza de Zoogoo mantinha uma bel\u00edssima mesquita na cidade. Essa mesquita era o grande ponto de solidariedade dos moradores da cidade, pois l\u00e1 eram prestados todos os servi\u00e7os do que podemos chamar de uma &#8220;cidade estado&#8221;.Na mesquita as crian\u00e7as eram alfabetizadas. No mundo isl\u00e2mico a alfabetiza\u00e7\u00e3o era garantida a todos os fi\u00e9is, j\u00e1 que para se estar em contato com Alah era vital saber ler o Alcor\u00e3o. Muitos s\u00e9culos antes das grandes na\u00e7\u00f5es &#8220;civilizadas&#8221; do ocidente garantirem a universaliza\u00e7\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o, as regi\u00f5es dominadas pelos califados j\u00e1 viviam essa realidade.<\/p>\n<p>Aos meninos eram ensinados os n\u00fameros! Se esperava que os meninos praticassem, quando adultos, o com\u00e9rcio da Rota D\u00b4Ouro. Foi nesse ambiente de incr\u00edveis contatos culturais que cresceu o menino Mahommah Baquaqua.<\/p>\n<p>J\u00e1 adulto Baquaqua se especializaria em comercializar a noz de obi- noz de cola. Em \u00c1frica essa noz \u00e9 conhecida como &#8220;fruto sagrado&#8221;. Ela \u00e9 comida nos acontecimentos mais importantes dos povos que vivem nessa regi\u00e3o.Segundo um anci\u00e3o africano: &#8220;A cola \u00e9 um s\u00edmbolo de unidade entre os homens e Deus. A noz-de-cola representa a vida, por isso, \u00e9 oferecida na ora\u00e7\u00e3o e nos ritos que celebram a alegria de viver, o amor, a paz, a m\u00fatua compreens\u00e3o. Come-se a noz-de-cola quando nasce uma crian\u00e7a, quando se celebra um casamento, quando morre um parente, quando um novo chefe sobe ao poder, quando tribos se reconciliam depois de travar uma guerra, quando se sela uma nova amizade&#8221;. A noz de Obi s\u00f3 \u00e9 consumida ap\u00f3s uma ora\u00e7\u00e3o.O islamismo soube absorver simbologias locais para refor\u00e7ar seu poder. A noz de obi foi absorvida\/sincretizada, como elemento sagrado, dentro das mesquitas das regi\u00f5es islamizadas.<\/p>\n<p>Os povos isl\u00e2micos adoram os n\u00fameros e s\u00e3o chegados \u00e0 numerologia. O n\u00famero 6 \u00e9 para eles o n\u00famero da perfei\u00e7\u00e3o divina. Baquaqua ,na sua saga pela liberdade, viveria em seis regi\u00f5es do globo: Zoogoo, Brasil, Estados Unidos, Haiti, Canad\u00e1 e Inglaterra. Seria o mundo uma noz de Obi? Seria a liberdade um exilir da noz que segundo a medicina moderna tem propriedades t\u00f4nicas, revitalizantes, afrodis\u00edacas e adestrigentes?<\/p>\n<p>A cidade de Baquaqua era disputada por dois poderosos grupos: o imp\u00e9rio ashanti e o califado de Sokoto. Os ashantis eram conhecidos pelo com\u00e9rcio d\u00b4ouro. O califado de Sokoto foi um poderoso imp\u00e9rio mul\u00e7umano. A cidade de Djougou era controlada pelos mu\u00e7ulmanos. As crian\u00e7as negras mu\u00e7ulmanas eram alfabetizadas em escolas nas quais aprendiam a leitura do Alcor\u00e3o e tamb\u00e9m tinham aulas da avan\u00e7ada matem\u00e1tica \u00e1rabe. Baquaqua foi educado numa dessas escolas. Em seus relatos da inf\u00e2ncia aparecem-nos vis\u00f5es de uma bel\u00edssima cidade, na qual as crian\u00e7as eram educadas nas varandas de suntuosas mesquitas. Negros alfabetizados e que possu\u00edam uma vida urbana intensa. Possu\u00edam uma f\u00e9 em Al\u00e1 que condenava a pr\u00e1tica da escravid\u00e3o. Como podemos ver nesse trecho do livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o aqueles (os crentes) que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, o qual encontram mencionado em sua Tor\u00e1 e no Evangelho, (o Mensageiro) que lhes recomenda o bem e lhes pro\u00edbe o il\u00edcito, prescreve-lhes todo o bem e veda-lhes o impuro, alivia-os dos seus fardos e livra-os dos grilh\u00f5es que os reprimem&#8230;\u201d (Alcor\u00e3o 7:157)<\/p>\n<p>Rota d\u201douro, rota de riquezas, rota de ascens\u00f5es e quedas incr\u00edveis. Foi nessa \u00c1frica pujante que Baquaqua cresceu, aprendeu pelo menos 3 idiomas para trabalhar nas caravanas de com\u00e9rcio e foi ali, na terra na qual supostamente a escravid\u00e3o era proibida pela lei do Deus do Isl\u00e3 que ele foi escravizado. Duas vezes escravizado! Com prov\u00e1veis 19 anos foi a primeira vez escravizado. Sua fam\u00edlia morava na cidade de Daboya, tamb\u00e9m na Rota d`ouro e vizinha de sua cidade natal e fornecia para um dos querelantes, numa guerra pelo dom\u00ednio do califado, mantimentos. Preso de guerra! Escravizado. Foi salvo por seu irm\u00e3o mais velho que o comprou no mercado de escravos, fingindo n\u00e3o o conhecer. Baquaqua cairia em desgra\u00e7a poucos meses depois por um motivo que a n\u00f3s parece f\u00fatil: foi pego roubando e consumindo uma garrafa de bebida alco\u00f3lica. A vida tumultuada, as brigas pol\u00edticas no califado fizera aquele simples homem cair na desgra\u00e7a do \u00e1lcool, desgra\u00e7a condenada pelo Alcor\u00e3o. Vejamos o que nos diz o livro entoado pelo profeta Maom\u00e9:<\/p>\n<p>\u201cSatan\u00e1s s\u00f3 ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recorda\u00e7\u00e3o de Deus e da ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o desistireis, diante disso?\u201d (Alcor\u00e3o 5:91)<\/p>\n<p>Se Baquaqua era protegido da escravid\u00e3o pelo livro sagrado,foi por ironia escravizado por um motivo expresso no mesmo livro sagrado. Ele foi enviado para a costa do Benim de onde seria trazido para a Am\u00e9rica, na condi\u00e7\u00e3o de escravo. As viagens em navios negreiros eram experi\u00eancias terr\u00edveis t\u00e3o bem retratadas na poesia antol\u00f3gica de Castro Alves. Vejamos um dos mais impactantes versos da literatura de l\u00edngua portuguesa sobre esse mart\u00edrio::<\/p>\n<p>&#8216;Stamos em pleno mar<br \/>\nEra um sonho dantesco&#8230; o tombadilho,<br \/>\nQue das luzernas avermelha o brilho,<br \/>\nEm sangue a se banhar.<br \/>\nTinir de ferros&#8230; estalar do a\u00e7oite&#8230;<br \/>\nLegi\u00f5es de homens negros como a noite,<br \/>\nHorrendos a dan\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Baquaqua assim descreveu a terr\u00edvel experi\u00eancia da di\u00e1spora negra:<\/p>\n<p>&#8220;Quando est\u00e1vamos prontos para embarcar (para as Am\u00e9ricas), fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pesco\u00e7o e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma esp\u00e9cie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. N\u00e3o estava ciente de que essa seria minha \u00faltima festa na \u00c1frica. Feliz de mim que n\u00e3o sabia[&#8230;]Fomos arremessados, nus, por\u00e3o adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O por\u00e3o era t\u00e3o baixo que n\u00e3o pod\u00edamos ficar de p\u00e9, \u00e9ramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no ch\u00e3o. Noite e dia eram iguais para n\u00f3s, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos[&#8230;]&#8221;<\/p>\n<p>Houve um pobre companheiro que ficou t\u00e3o desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia \u00e1gua. Foi levado ao conv\u00e9s, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido\/jogado\/ao\/mar.<\/p>\n<p>Mesmo com a Inglaterra cerceando o litoral africano tentando coibir a escravid\u00e3o e apreendendo os navios negreiros, Baquaqua n\u00e3o teve sorte&#8230; Seu navio n\u00e3o fora visto pelos ingleses. Baquaqua chegou ao Brasil em 1845 ap\u00f3s cerca de 40 dias de viagem. Desembarcou em Olinda. Foi colocado a venda num mercado de escravos. Seu primeiro dono no Brasil foi um comerciante. Baquaqua aprendeu o of\u00edcio de padeiro. Sobre seu primeiro senhor Baquaqua legou-nos o seguinte trecho:<\/p>\n<p>&#8220;Meus companheiros n\u00e3o eram t\u00e3o constantes quanto eu, sendo muito dados \u00e0 bebida e, por isso, eram menos rent\u00e1veis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opini\u00e3o, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em v\u00e3o; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfaz\u00ea-lo. Ent\u00e3o comecei a beber como os outros e, assim, \u00e9ramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos.&#8221;<\/p>\n<p>Uma vida vocacionada a liberdade. Baquaqua rebelou-se contra os maus tratos do patr\u00e3o e segundo suas pr\u00f3prias palavras &#8220;um mau senhor, tem maus escravos&#8221;. Sua estrat\u00e9gia deu certo! Seu mau senhor tratou de vend\u00ea-lo para outro senhor. Seu novo senhor, Clemente Jos\u00e9 da Costa, um capit\u00e3o de navio e co-propriet\u00e1rio do navio Lembran\u00e7a, morava na capital do imp\u00e9rio brasileiro: a cidade do Rio de Janeiro. Baquaqua viu na capital do imp\u00e9rio uma oportunidade para sua liberdade. No Rio de Janeiro, um escravo alfabetizado e com conhecimentos de matem\u00e1tica e com\u00e9rcio ,era algo extraordin\u00e1rio. Ele trabalhava num navio que comerciava charque entre a capital e a prov\u00edncia do Rio Grande do Sul. Viu no seu novo ambiente de trabalho uma oportunidade de estar longe da tirania de seu senhor, de viajar pela costa sul do Brasil e de estabelecer uma rede de liga\u00e7\u00f5es humanas. Fez duas viagens ao Rio Grande do Sul. Sua pr\u00f3xima viagem seria seu passaporte para a liberdade: em 24 de abril de 1847 o Lembran\u00e7a zarpava para a cidade de Nova Iorque, l\u00e1 chegando em 27 de junho, 66 dias depois.<\/p>\n<p>Durante a viagem Baquaqua soube por tripulantes norte americanos que no norte dos Estados Unidos a escravid\u00e3o era condenada. Conforme seu relato:<\/p>\n<p>&#8220;A primeira palavra que meus dois companheiros e eu<br \/>\naprendemos em ingl\u00eas foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um ingl\u00eas a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti.&#8221;<\/p>\n<p>Animou-se com a id\u00e9ia de desembarcar em uma terra na qual a escravid\u00e3o era condenada. Baquaqua viajara para os Estados Unidos com outro escravo que trabalhava com ele no Rio de Janeiro: Jos\u00e9 da Rocha. Incitado por abolicionistas locais Baquaqua e Rocha pularam do navio em busca da &#8220;liberdade&#8221;. Baquaqua e Rocha foram presos pela pol\u00edcia local. O caso repercutiu de maneira forte nos jornais de Nova Iorque. Foi retratado como o caso &#8220;dos escravos brasileiros fugitivos&#8221; e ganhou apoio da popula\u00e7\u00e3o local que via na escravid\u00e3o uma barb\u00e1rie. A fuga gerou uma querela judicial. No dia 9 de agosto de 1847 Baquaqua e Rocha fugiram de &#8220;forma milagrosa&#8221; da pris\u00e3o. Os depoimentos recolhidos pela pol\u00edcia indicam que o carcereiro apoiava a causa abolicionista e facilitou a fuga da pris\u00e3o de Eldridge Street. Baquaqua e Rocha fugiram para Boston e de l\u00e1 foram para o Haiti, pa\u00eds que passara por uma revolu\u00e7\u00e3o de escravos contra os colonizadores brancos franceses em 1789. O Haiti era o pa\u00eds das Am\u00e9ricas no qual os negros eram livres.<\/p>\n<p>No Haiti Baquaqua estabeleceu rela\u00e7\u00f5es de amizade e carinho com a fam\u00edlia do reverendo William L. Judd. O reverendo pertencia a Sociedade da Miss\u00e3o Livre Batista Americana. A igreja lutava em nome da aboli\u00e7\u00e3o. Baquaqua converteu-se ao cristianismo e foi batizado em 1848. Junto com a fam\u00edlia Judd voltou aos EUA no final de 1849. Nos Estados Unidos, de novo, estudou durante quatro anos no New York Central College. A associa\u00e7\u00e3o batista incentivava ex escravos a escreverem suas biografias como exemplos de luta contra o mal da escravid\u00e3o. Baquaqua viajou por v\u00e1rias cidades dos Estados Unidos dando testemunhos e lutando com afinco contra a escravid\u00e3o. Em 1854 publicou sua biografia. Viajou para o Oeste do Canad\u00e1 no final de 1854 e ganhou cidadania brit\u00e2nica(o Canad\u00e1 ainda era col\u00f4nia do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico). Baquaqua viajou para Inglaterra e permaneceu l\u00e1 at\u00e9 1857.<\/p>\n<p>Nosso her\u00f3i sempre nutriu um sonho. O sonho de voltar a sua terra e reencontrar-se com sua fam\u00edlia. Quando escreveu sua biografia em 1854 Baquaqua tinha aproximadamente 30 anos(provavelmente nasceu no ano de 1824). Um homem jovem, com uma experi\u00eancia de vida extraordin\u00e1ria. Em documentos do reverendo Judd temos relatado um sonho recorrente de Baquaqua: \u201cFoi relatado que Baquaqua \u201cfala muito da \u00c1frica e&#8230; Sonha, freq\u00fcentemente, que est\u00e1 visitando a cidade de Kachna [Katsina], acompanhado de um bom homem branco, como ele chama os mission\u00e1rios, e sendo gentilmente recebido por sua m\u00e3e\u201d(p.20). O sonho de reencontrar seus la\u00e7os terrenos, seus la\u00e7os de sangue, de tradi\u00e7\u00e3o, de solidariedades, de fam\u00edlia! Sonho que esteve nos cora\u00e7\u00f5es dos mais de 5,5 milh\u00f5es de africanos que foram trazidos da \u00c1frica para o Brasil, durante mais de 350 anos de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Baquaqua desaparece dos registros hist\u00f3ricos em 1857. N\u00e3o sabemos se ele conseguiu realizar seu sonho de voltar \u00e0 \u00c1frica. Sua hist\u00f3ria \u00e9 uma verdadeira odiss\u00e9ia. Uma hist\u00f3ria de lutas, aprendizagens, transforma\u00e7\u00f5es, supera\u00e7\u00f5es e vit\u00f3rias. Desafiou os escravistas e aquela sociedade que se dizia civilizada e que degradava uma parte da humanidade, os filhos da Agar b\u00edblica, a humilha\u00e7\u00e3o e a covardia da escravid\u00e3o. Vejamos o desafio de Baquaqua aos escravistas:<\/p>\n<p>&#8220;Que aqueles \u2018indiv\u00edduos humanit\u00e1rios\u2019 que s\u00e3o a favor da escravid\u00e3o se coloquem no lugar do escravo no por\u00e3o barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da \u00c1frica \u00e0 Am\u00e9rica, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravid\u00e3o: se n\u00e3o sa\u00edrem abolicionistas convictos, ent\u00e3o n\u00e3o tenho mais nada a dizer a favor da aboli\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RECANTO DO BEIJA-FLOR BAQUAQUA &#8211; VIS\u00d5ES DA LIBERDADE Por Andre Dubois Baquaqua nasceu foi criado na cidade de Zoogoo ou, como chamaram os franceses quatro d\u00e9cadas depois, Djougou. Sua cidade natal fica no atual Benin. 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