Conheça o enredo do GRESV Recanto do Beija-Flor para o Carnaval 2018

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RECANTO DO BEIJA-FLOR
BAQUAQUA – VISÕES DA LIBERDADE

Por Andre Dubois

Baquaqua nasceu foi criado na cidade de Zoogoo ou, como chamaram os franceses quatro décadas depois, Djougou. Sua cidade natal fica no atual Benin. A Zoogoo do início do século XIX era ainda desconhecida dos europeus, já que ficava numa região mais central da Costa noroeste da África. Zoogoo era uma próspera cidade situada no meio da Rota D`Ouro. Região de intenso intercâmbio comercial e de passagem de diferentes povos. Uma região de muitas línguas, culturas e crenças! Um espaço de muitos contatos!

A Rota D´Ouro, como o nome sugere, levava à região várias caravanas de homens que desejavam enriquecer. O ouro não era a única riqueza! Por ali os homens comercializavam alimentos, o marfim e a cultuada “noz de obi”- também conhecida como “noz de cola”.

A cidade de Zoogoo era protegida por seis portais. Cada portal conta a genealogia de um povo que tinha vocação de guerreiro. O número 6 era um número sagrado para os moradores de Zoogoo. Assim como no ocidente acreditamos que os trevos de 4 folhas trazem sorte, os moradores da cidade natal de Baquaqua acreditavam que as “nozes de obi”, segmentadas em 6 partes, seriam símbolos de sorte. Membros do palácio real da cidade usavam colares com nozes de seis esferas como símbolos de poder, status e diferenciação social.

A religião islâmica era preponderante na cidade de Zoogoo. Durante séculos os califados árabes no norte d´África expandiram o islamismo por diversas regiões do continente. A cidade negra de Zoogoo tinha no Alcorão seu livro de fé. A nobreza de Zoogoo mantinha uma belíssima mesquita na cidade. Essa mesquita era o grande ponto de solidariedade dos moradores da cidade, pois lá eram prestados todos os serviços do que podemos chamar de uma “cidade estado”.Na mesquita as crianças eram alfabetizadas. No mundo islâmico a alfabetização era garantida a todos os fiéis, já que para se estar em contato com Alah era vital saber ler o Alcorão. Muitos séculos antes das grandes nações “civilizadas” do ocidente garantirem a universalização da alfabetização, as regiões dominadas pelos califados já viviam essa realidade.

Aos meninos eram ensinados os números! Se esperava que os meninos praticassem, quando adultos, o comércio da Rota D´Ouro. Foi nesse ambiente de incríveis contatos culturais que cresceu o menino Mahommah Baquaqua.

Já adulto Baquaqua se especializaria em comercializar a noz de obi- noz de cola. Em África essa noz é conhecida como “fruto sagrado”. Ela é comida nos acontecimentos mais importantes dos povos que vivem nessa região.Segundo um ancião africano: “A cola é um símbolo de unidade entre os homens e Deus. A noz-de-cola representa a vida, por isso, é oferecida na oração e nos ritos que celebram a alegria de viver, o amor, a paz, a mútua compreensão. Come-se a noz-de-cola quando nasce uma criança, quando se celebra um casamento, quando morre um parente, quando um novo chefe sobe ao poder, quando tribos se reconciliam depois de travar uma guerra, quando se sela uma nova amizade”. A noz de Obi só é consumida após uma oração.O islamismo soube absorver simbologias locais para reforçar seu poder. A noz de obi foi absorvida/sincretizada, como elemento sagrado, dentro das mesquitas das regiões islamizadas.

Os povos islâmicos adoram os números e são chegados à numerologia. O número 6 é para eles o número da perfeição divina. Baquaqua ,na sua saga pela liberdade, viveria em seis regiões do globo: Zoogoo, Brasil, Estados Unidos, Haiti, Canadá e Inglaterra. Seria o mundo uma noz de Obi? Seria a liberdade um exilir da noz que segundo a medicina moderna tem propriedades tônicas, revitalizantes, afrodisíacas e adestrigentes?

A cidade de Baquaqua era disputada por dois poderosos grupos: o império ashanti e o califado de Sokoto. Os ashantis eram conhecidos pelo comércio d´ouro. O califado de Sokoto foi um poderoso império mulçumano. A cidade de Djougou era controlada pelos muçulmanos. As crianças negras muçulmanas eram alfabetizadas em escolas nas quais aprendiam a leitura do Alcorão e também tinham aulas da avançada matemática árabe. Baquaqua foi educado numa dessas escolas. Em seus relatos da infância aparecem-nos visões de uma belíssima cidade, na qual as crianças eram educadas nas varandas de suntuosas mesquitas. Negros alfabetizados e que possuíam uma vida urbana intensa. Possuíam uma fé em Alá que condenava a prática da escravidão. Como podemos ver nesse trecho do livro sagrado dos muçulmanos

“São aqueles (os crentes) que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, o qual encontram mencionado em sua Torá e no Evangelho, (o Mensageiro) que lhes recomenda o bem e lhes proíbe o ilícito, prescreve-lhes todo o bem e veda-lhes o impuro, alivia-os dos seus fardos e livra-os dos grilhões que os reprimem…” (Alcorão 7:157)

Rota d”ouro, rota de riquezas, rota de ascensões e quedas incríveis. Foi nessa África pujante que Baquaqua cresceu, aprendeu pelo menos 3 idiomas para trabalhar nas caravanas de comércio e foi ali, na terra na qual supostamente a escravidão era proibida pela lei do Deus do Islã que ele foi escravizado. Duas vezes escravizado! Com prováveis 19 anos foi a primeira vez escravizado. Sua família morava na cidade de Daboya, também na Rota d`ouro e vizinha de sua cidade natal e fornecia para um dos querelantes, numa guerra pelo domínio do califado, mantimentos. Preso de guerra! Escravizado. Foi salvo por seu irmão mais velho que o comprou no mercado de escravos, fingindo não o conhecer. Baquaqua cairia em desgraça poucos meses depois por um motivo que a nós parece fútil: foi pego roubando e consumindo uma garrafa de bebida alcoólica. A vida tumultuada, as brigas políticas no califado fizera aquele simples homem cair na desgraça do álcool, desgraça condenada pelo Alcorão. Vejamos o que nos diz o livro entoado pelo profeta Maomé:

“Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recordação de Deus e da oração. Não desistireis, diante disso?” (Alcorão 5:91)

Se Baquaqua era protegido da escravidão pelo livro sagrado,foi por ironia escravizado por um motivo expresso no mesmo livro sagrado. Ele foi enviado para a costa do Benim de onde seria trazido para a América, na condição de escravo. As viagens em navios negreiros eram experiências terríveis tão bem retratadas na poesia antológica de Castro Alves. Vejamos um dos mais impactantes versos da literatura de língua portuguesa sobre esse martírio::

‘Stamos em pleno mar
Era um sonho dantesco… o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

O próprio Baquaqua assim descreveu a terrível experiência da diáspora negra:

“Quando estávamos prontos para embarcar (para as Américas), fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia[…]Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos[…]”

Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido/jogado/ao/mar.

Mesmo com a Inglaterra cerceando o litoral africano tentando coibir a escravidão e apreendendo os navios negreiros, Baquaqua não teve sorte… Seu navio não fora visto pelos ingleses. Baquaqua chegou ao Brasil em 1845 após cerca de 40 dias de viagem. Desembarcou em Olinda. Foi colocado a venda num mercado de escravos. Seu primeiro dono no Brasil foi um comerciante. Baquaqua aprendeu o ofício de padeiro. Sobre seu primeiro senhor Baquaqua legou-nos o seguinte trecho:

“Meus companheiros não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros e, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos.”

Uma vida vocacionada a liberdade. Baquaqua rebelou-se contra os maus tratos do patrão e segundo suas próprias palavras “um mau senhor, tem maus escravos”. Sua estratégia deu certo! Seu mau senhor tratou de vendê-lo para outro senhor. Seu novo senhor, Clemente José da Costa, um capitão de navio e co-proprietário do navio Lembrança, morava na capital do império brasileiro: a cidade do Rio de Janeiro. Baquaqua viu na capital do império uma oportunidade para sua liberdade. No Rio de Janeiro, um escravo alfabetizado e com conhecimentos de matemática e comércio ,era algo extraordinário. Ele trabalhava num navio que comerciava charque entre a capital e a província do Rio Grande do Sul. Viu no seu novo ambiente de trabalho uma oportunidade de estar longe da tirania de seu senhor, de viajar pela costa sul do Brasil e de estabelecer uma rede de ligações humanas. Fez duas viagens ao Rio Grande do Sul. Sua próxima viagem seria seu passaporte para a liberdade: em 24 de abril de 1847 o Lembrança zarpava para a cidade de Nova Iorque, lá chegando em 27 de junho, 66 dias depois.

Durante a viagem Baquaqua soube por tripulantes norte americanos que no norte dos Estados Unidos a escravidão era condenada. Conforme seu relato:

“A primeira palavra que meus dois companheiros e eu
aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti.”

Animou-se com a idéia de desembarcar em uma terra na qual a escravidão era condenada. Baquaqua viajara para os Estados Unidos com outro escravo que trabalhava com ele no Rio de Janeiro: José da Rocha. Incitado por abolicionistas locais Baquaqua e Rocha pularam do navio em busca da “liberdade”. Baquaqua e Rocha foram presos pela polícia local. O caso repercutiu de maneira forte nos jornais de Nova Iorque. Foi retratado como o caso “dos escravos brasileiros fugitivos” e ganhou apoio da população local que via na escravidão uma barbárie. A fuga gerou uma querela judicial. No dia 9 de agosto de 1847 Baquaqua e Rocha fugiram de “forma milagrosa” da prisão. Os depoimentos recolhidos pela polícia indicam que o carcereiro apoiava a causa abolicionista e facilitou a fuga da prisão de Eldridge Street. Baquaqua e Rocha fugiram para Boston e de lá foram para o Haiti, país que passara por uma revolução de escravos contra os colonizadores brancos franceses em 1789. O Haiti era o país das Américas no qual os negros eram livres.

No Haiti Baquaqua estabeleceu relações de amizade e carinho com a família do reverendo William L. Judd. O reverendo pertencia a Sociedade da Missão Livre Batista Americana. A igreja lutava em nome da abolição. Baquaqua converteu-se ao cristianismo e foi batizado em 1848. Junto com a família Judd voltou aos EUA no final de 1849. Nos Estados Unidos, de novo, estudou durante quatro anos no New York Central College. A associação batista incentivava ex escravos a escreverem suas biografias como exemplos de luta contra o mal da escravidão. Baquaqua viajou por várias cidades dos Estados Unidos dando testemunhos e lutando com afinco contra a escravidão. Em 1854 publicou sua biografia. Viajou para o Oeste do Canadá no final de 1854 e ganhou cidadania britânica(o Canadá ainda era colônia do Império Britânico). Baquaqua viajou para Inglaterra e permaneceu lá até 1857.

Nosso herói sempre nutriu um sonho. O sonho de voltar a sua terra e reencontrar-se com sua família. Quando escreveu sua biografia em 1854 Baquaqua tinha aproximadamente 30 anos(provavelmente nasceu no ano de 1824). Um homem jovem, com uma experiência de vida extraordinária. Em documentos do reverendo Judd temos relatado um sonho recorrente de Baquaqua: “Foi relatado que Baquaqua “fala muito da África e… Sonha, freqüentemente, que está visitando a cidade de Kachna [Katsina], acompanhado de um bom homem branco, como ele chama os missionários, e sendo gentilmente recebido por sua mãe”(p.20). O sonho de reencontrar seus laços terrenos, seus laços de sangue, de tradição, de solidariedades, de família! Sonho que esteve nos corações dos mais de 5,5 milhões de africanos que foram trazidos da África para o Brasil, durante mais de 350 anos de escravidão.

Baquaqua desaparece dos registros históricos em 1857. Não sabemos se ele conseguiu realizar seu sonho de voltar à África. Sua história é uma verdadeira odisséia. Uma história de lutas, aprendizagens, transformações, superações e vitórias. Desafiou os escravistas e aquela sociedade que se dizia civilizada e que degradava uma parte da humanidade, os filhos da Agar bíblica, a humilhação e a covardia da escravidão. Vejamos o desafio de Baquaqua aos escravistas:

“Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravidão: se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição.”

 

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