No ano em que celebra 18 anos de existência, a Sociedade Águia Real apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo de 2026, do Carnaval Virtual.
De autoria de Marcos Felipe Reis, a agremiação irá defender o enredo “O Rei do Candomblé”, uma homenagem a Joãozinho da Goméia.
Confira a sinopse do enredo:
O Rei do Candomblé
Kiô! kiô!
Era um assobio que se escutava ao longe
Kiô! Kiô!
Seria esse o piar de uma ave altaneira em mais um voo?
Poderia até ser
Mas hoje ela escolheu sentar no alto de uma gameleira
Enquanto os piados logo viraram gritos e brados
Xetruá! Okê! Okê!
Rompe mato abria caminho
Serra Negra, Arranca toco, Sete montanhas
Tupinambá, Jandira, Jurema
Sete flechas, Lírio e tantos mais se aproximavam
Batendo pé, piando e rodopiando
De repente, tudo se acalma
O silêncio do ajoelhar se entrelaça em respeito
Lá vem o Pedra preta, o grande guardião
E atrás dele Mutakalambo, o grande caçador
Para avisar que o rei estava novamente em terra
Bahia é berço da afrodiáspora
Onde os candomblés encontram um pouco de África
E os tabuleiros das mães baianas carregam axé
Foi em Inhambupe que nasceu menino João
Esperto como caçador, rápido como raio
Chega a Salvador guiado pelo assobio caboclo, em meio às visões que o
acompanhavam
Quando pai Severiano, o Juiabá, consagra seu ori
Dá início ao futuro reinado batuqueiro
João Pedra Preta deu espaço então a Londirá
Fazendo florescer seu primeiro terreiro na capital baiana
Que logo ficou pequeno para tamanha procura
Mudando-se então para a Goméia onde começa seu reinado
Clareia, Dindinha!
Em meio às festas do 2 de julho
Lá vai ele junto de Pedra Preta
Firmar axoxô pro seu nkisi guerreiro
Londirá, agora Tata dia Nkisi, parte para o Rio
Homem-passarinho,dendezeiro-e-juremeira
Queria muito mais do que a Bahia que o perseguia
Poderia lhe oferecer
Aquele mulato de visão libertária chega em Caxias
Fazendo da baixada seu grande terreiro
Dando suas grandes festas
Quadrilhas, balés e candomblés
Meio rua, meio roncó
Levou seu toque de orixá para o povo
Que as palavras de Jorge Amado descreveram:
“Ora angola, ora nagô e candomblé de caboclo”
Uma verdadeira profusão de fé que saia de suas mãos para o axé
E o reinado da Goméia se expandiu
Joãozinho era leve como vento
Mas forte como tornado
Bailava pelas ruas do Rio
Popularizando seu xirê teatro a dentro
Encabeçava revolução
Trazia em seu corpo a Frente Negra
Enquanto gangazumba inspirava novos ideais
Era vedete suburbana
Cleópatra carnavalesca de seus sonhos
Destaque de momo,
Fazia a sorte em sua jogatina
Encantando Elizabeths, Getúlios e Juscelinos
Fazendo do Brasil seu grande terreiro festivo
Atirando sua flecha rumo ao infinito
E como um raio transgressor
Matamba riscou o céu
Num estouro que tentava anunciar o fim
Voou como um pássaro ao horizonte
Mas, como “quem é rei, nunca perde a majestade”
Joãozinho da Goméia nunca perdeu seu lugar
A chuva, lavou a alma
Uniu as negras raízes nos mesmos ideais
Manter vivas as negras memórias de um rei
João de Inhambupe.
Tornou-se samba, tudo do que ele mais gostava
Consagrou Caxias na encruzilhada de momo
Kiô Kiô, retorna o assobio a cantar
Que sempre tenha samba em nosso Brasil caboclo
Que sempre haja espaço para Tata Londirá
E que nunca esqueçamos, então, do rei do candomblé
Texto: Marcos Felipe Reis









