Ponte Aérea cantará a força de Yebá-Burô no Carnaval Virtual 2026

Atual campeã do Grupo Especial do Carnaval Virtual, o GRCESV Ponte Aérea apresentou o enredo em que irá buscar o bicampeonato do grupo no Carnaval Virtual 2026.

De autoria de Lucas Guerra e Murilo Polato, a agremiação prestará uma homenagem à força de Yebá-Burô e o matriarcado feminino através do enredo “A Ancestral do Universo”.

Confira a sinopse do enredo:

A ANCESTRAL DO UNIVERSO

SINOPSE

Escutem, povos da terra, do céu e das águas profundas. Escutem o que existia antes do som, antes do mundo, antes de tudo tomar forma. Escutem o que o silêncio murmurava quando era a única respiração do universo. No princípio, apenas ele pulsava. Do ventre mais escuro nasceu a noite, e essa noite se estendeu como uma rede sagrada sobre a poeira cósmica. Quando o tempo ainda dormia, o silêncio rompeu-se em explosão. Cristais vagaram, esferas sombrias dançaram, e o universo começou a se erguer das sombras. Da explosão, surgiu a maloca de quartzo branco, brilhando no vazio primordial, chamando o espírito da origem — o lugar onde se caminha antes de ter corpo.

Ali estava Yebá-Burô. Ela mascava folhas de ipadu e soltava fumaça que subia como serpente de luz. Cada sopro era gesto, cada gesto era mundo. De seu sopro fez fumaça. De sua fumaça, teceu esferas de sombra; do pensamento, ergueu Umukowi’i, a grande maloca do universo; das folhas, moldou cinco homens de quartzo, os Umukosurã, trovões da criação. A eles ordenou: abram caminhos, acendam a luz, façam os rios, façam a vida. Eles criaram os rios. Mas falharam em sua missão. A noite ainda reinava. O breu cósmico aguardava o sopro final da mulher que imaginaria a sua existência.

Logo oficial do enredo

Yebá fumou novamente e, profundamente, e a fumaça encheu a maloca de cristal. Dela nasceu Emekõsulanpaanami, o filho dos trovões, o demiurgo da terra. Ele trazia um cetro de osso primitivo, que a avó adornou com penas vivas e lascas de quartzo que guardavam o brilho do relâmpago. A ponta ganhou rosto, cor e espírito. Quando Emekõ soprou o cetro, a luz se abriu como um canto: Abe, o Sol, despertou, e a maloca do universo se inundou de claridade. Com o cetro, Emekõ fez brotar uma maloca tão reluzente quanto o Sol. Cores rasgaram o céu, pássaros anunciaram a vida, peixes saltaram nos rios, samambaias e árvores se ergueram como guardiãs do sagrado. Os trovões tremeram de inveja, mas um deles reconheceu: a vida e a luz nascem da sabedoria de mulher. Assim, o caminho da luz foi selado.

Com a luz criada, Emekõ seguiu sua missão. Yebá o chamou, guiou e enviou à maloca do trovão, para buscar os enfeites que guardariam a humanidade. Ele subiu pelo espaço, e a cada passo um puri surgia: o puri do subsolo, onde forças estranhas habitam; o puri da terra, onde a humanidade viveria; o puri do céu, a morada dos deuses. Ao chegar, anunciou-se ao trovão, que o recebeu e o conduziu, ao centro de sua maloca de quartzo, adornada com penas, pingentes e brilho de mundo novo. O trovão reuniu as riquezas — penas vivas, colares de quartzo, dentes, forquilhas de poder — e declarou que tudo aquilo era guardado para o nascimento dos homens. Quando Emekõ fosse criar, deveria colocar o puri no chão e chamar a força Dessana.

As riquezas brilhavam, o quartzo refletia formas humanas, e o clarão se abriu para revelar Boreka, primeiro líder, primeiro guardião, primeiro homem da nação de Emekõsulanpaanami. O trovão continuou o rito, falando com a folha sagrada, com o turí, com a força que antecede o mundo. A folha é o saber, o turí é o caminho, e tudo que nasce, é fruto do sagrado. Ele entregou ipadu e turí, entregou o que seria sagrado para sempre. Emekõ e Boreka agradeceram e seguiram para a grande maloca, acompanhados pelo trovão, que desceu com eles transformado em cobra-canoa. Igara serpente. Canoa do caminho da vida. Juntos, navegaram pelo lago de leite até o Uaupés.

Ali, colocaram o puri no chão, mascaram a folha e acenderam o turí. Emekõ ergueu o cetro com força ancestral e, com voz que abre mundos, chamou o povo de Yebá: LEVANTEM, DESSANA!  A maloca brotou brilhante como o Sol, como o primeiro dia. Um clarão multicor tingiu o céu, pássaros surgiram, peixes saltaram, cobras e jacarés despertaram, samambaias gigantes e árvores frondosas brotaram da terra. Tudo nasceu, tudo cantou, tudo despertou do sopro da anciã. Em meio ao clarão, Emekõ e Boreka ouviram o Sowó antigo e viram homens e mulheres surgirem adornados com quartzo, penas e flechas erguidas, celebrando ao redor da grande maloca de onde toda vida jorrou. O povo dançou, o espírito dançou, a criação dançou. A missão estava cumprida: luz, vida e mundo foram dados a Umukowi’i. Boreka recebeu a tarefa de guardar a palavra de Yebá, ser memória e ponte entre o alto e a terra. Emekõ voltou ao espaço, e o povo Dessana cresceu, tecendo ritos, mitos e lembranças da avó do mundo.

Escutem, povos da terra. Escutem o que ainda pulsa. Somos filhos de Yebá-Burô, frutos de seu sopro e pensamento. Tudo que respira, canta e lembra, nasceu da concepção de uma mulher. Folha é memória, pena é memória, cristal é memória. As folhas, o paricá, a ayahuasca, o caxiri — tudo é fio da mão que gera, da boca que conta, da mulher que é matriz e lembrança. Que se cante o nome da grande anciã, Yebá-Burô, a força que soprou a vida e ergueu a maloca do universo. Que cada geração saiba que a vida brotou da ancestral do mundo. Em cada rio, pena e cristal pulsa sua marca. A criação é feminina, e a mulher é raiz que sustenta o mundo. Assim foi. Assim é. Assim será.

Lucas Guerra e Murilo Polato

GLOSSÁRIO

Ipadu – Erythroxylum coca – árvore de onde são retiradas as folhas de coca.
Umukowi’i – O mundo ainda sem luz e vida, a maloca do universo.
Umukosurã – Os cincos trovões criados por Yebá, os primeiros responsáveis pela criação.
Dabacuri – Rito indígena de celebração e união de povos, a junção pela criação.
Caapi – Bebida ritualística feita a partir do cipó-mariri.
Puri -Espécime de cesto de palha seca trançada.
Boreka – Primeiro índio Dessana a surgir, ser que veio do universo.
Turí – Lascas de árvore seca que são trituradas e fumadas em rituais.
Igara – Canoa escavada em um único tronco de árvore.
Umukomasã – Como se autodenominam os índios Dessana, a gente do universo.
Paricá – Schizolobium amazonicum – árvore de onde se extraí do pó inalado em rituais.
Ayahuasca – Bebida sagrada feita de diversas ervas e plantas, chá que provoca alucinações.
Caxiri – Bebida feita da fermentação da mandioca, celebração aos que chegam de longe.

REFERÊNCIAS

UMUSI, Parokumu et al. Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kehiripora. 1995.

Desana – etnias do rio Uaupés. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Desana>.
Acesso em Fev 2026.

Criação do mundo para os índios Dessana. Disponível em: <https://www.acropole.org.br/simbolismo/criacao-do-mundo-para-os-indios-dessana/ >.  Acesso em Abr 2026.

Author: Lucas Guerra

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