Retornando ao Grupo Especial, o GRESV Acadêmicos de Madureira apresentou o enredo que levará para a avenida no Carnaval Virtual 2026.
De autoria de Ruan Avelar, a agremiação irá defender o enredo “O relho triunfa do senhor das ladeiras e o mistério mascarado chacoalha o sertão!”.
Confira a sinopse do enredo:
O relho triunfa do senhor das ladeiras e o mistério mascarado chacoalha o sertão!
O ARCO INVISÍVEL: A MÁSCARA COMO LINGUAGEM, RITO E REVELAÇÃO
No princípio, era o rosto. E a humanidade, diante do mundo, precisou reinventá-lo.
Ao longo da história das culturas humanas, a máscara configura-se como um dispositivo simbólico de transfiguração que desloca o sujeito de sua identidade ordinária para um campo ampliado de experiência. Mais do que um simples adereço, ela opera como linguagem cênica, integrando um sistema de signos visuais que constitui a encenação e produz sentidos na relação entre corpo, imagem e espectador. Nesse sentido, sua presença não se limita ao teatro formal, mas se estende às práticas festivas, como o carnaval, onde assume funções específicas relacionadas ao jogo social e ao imaginário coletivo.
Mascarar-se é tornar-se outro – paradoxalmente, tornar-se mais profundamente a si.
A partir de uma perspectiva que articula teatralidade e cultura popular, a máscara pode ser compreendida como portadora de um princípio de mistério. Esse mistério atravessa a categoria de ocultamento do rosto, de forma que se instaura em uma zona ambígua entre o ser e o parecer, entre identidade e representação. Historicamente vinculada a rituais e práticas sagradas, a máscara já foi concebida como um artefato de mediação com o invisível, possibilitando a incorporação de entidades, forças ou personagens outros. Tal dimensão persiste, ainda que ressignificada, nos contextos contemporâneos, sobretudo no carnaval.
No âmbito da encenação, o uso da máscara implica uma reorganização da expressividade. Ao suprimir a face como principal veículo de comunicação, ela desloca a potência expressiva para o corpo, instaurando uma nova gramática gestual baseada no exagero, na codificação e na estilização dos movimentos. Esse deslocamento intensifica o caráter enigmático da presença mascarada: o que se oculta no rosto reaparece de forma amplificada no corpo, produzindo um jogo sensível entre revelação e ocultamento.
No carnaval, esse princípio atinge sua potência máxima.
No contexto do carnaval, e particularmente no Carnaval de Veneza, esse jogo atinge uma dimensão social ampliada. A máscara, incorporada ao espaço urbano e festivo, permite ao folião experimentar uma espécie de suspensão das normas identitárias e das hierarquias sociais. Ao encobrir o rosto, ela não apenas protege o anonimato, mas ativa uma liberdade performativa, autorizando comportamentos, gestos e interações que escapam às convenções cotidianas. O mistério, aqui, torna-se uma condição de possibilidade: é justamente por não ser reconhecido que o sujeito pode reinventar-se.
Essa dimensão é reforçada pela própria tradição veneziana, onde as máscaras, influenciadas pela Commedia dell’arte, passaram a integrar o cotidiano festivo desde o século XVI, assumindo tanto formas tipificadas quanto criações livres dos foliões. Nesse ambiente, a máscara transita entre o teatral e o social, entre o ritual e o lúdico, sem perder sua função primordial de transformação; representando personagens e produzindo estados de exceção, de liberdade e de imaginação.
Assim, no carnaval, a máscara opera como um dispositivo de mistério ativo: ela mantém uma função de esconder a identidade e cria outra, instaurando um intervalo entre o visível e o invisível, entre o eu e o outro. Nesse intervalo, o corpo torna-se superfície simbólica e o sujeito, ao mesmo tempo oculto e potencializado, inscreve-se em uma experiência coletiva marcada pela invenção, pela transgressão e pela potência do imaginário.
É nesse território liminar que o enredo se inaugura: no reconhecimento de que toda máscara carrega em si uma cosmologia, uma ética e uma poética.
TRIUNFO: OÁSIS DO SERTÃO, TERRITÓRIO DO ENCANTAMENTO
No coração do sertão pernambucano, onde a terra resiste e floresce em contradições, ergue-se Triunfo; cidade que não apenas abriga uma tradição, mas a encarna.
Ali o sertão se transforma, uma construção referencial e visual em permanente reinvenção: desloca-se para a altitude, condensa-se na neblina, manifesta-se no frio inesperado e floresce em jardins improváveis. Nesse processo, a cidade atua como instância produtora de sentidos, operando simultaneamente como cenário e personagens. Tal perspectiva aproxima-se das abordagens antropológicas que compreendem o território como dimensão constitutiva das práticas culturais, na medida em que ele participa ativamente da produção do imaginário social e da elaboração das identidades coletivas. Assim, o espaço possibilita o entendimento como pano de fundo para reconhecimento de um agente simbólico, que é atravessado por experiências, narrativas e performatividades que configuram o próprio sentido do folguedo.
É nesse espaço que a cultura se faz convivência.
Feiras, plantações, festas e encontros tecem uma rede de relações que sustenta a vida comunitária. O cotidiano, longe de ser banal, é matéria-prima para a criação simbólica. É nele que se gestam os afetos, as memórias e as práticas que, mais tarde, irrompem no carnaval como espetáculo.
Nesse organismo territorial vivo nasce, transforma: o Careta.
Por sua vez, devolve à cidade sua própria imagem, ampliada, renovada, encantada.
A ESTÉTICA DO MISTÉRIO, DO RITUAL AO PROFANO FESTEIRO
A origem não se fixa na ordem, mas no desvio; nesse gesto inaugural que, ao escapar à norma, inaugura novas possibilidades de existência. Vinculada às práticas do Reisado, a gênese do Careta inscreve-se na experiência do deslocamento: a do brincante que, afastado do centro da festa, encontra nas margens o espaço fértil da invenção. É nesse limiar entre exclusão e criação que a tradição começa a se redesenhar.
Emerge a figura de Mateus, na dobra tênue entre a ordem e o desvio.
Bebeu da festa além da conta; expulso foi do rito.
Fez da margem o seu caminho e do improviso, invenção: transgrediu, riu, fez das ladeiras seu palco, transformando a exclusão em celebração.
O gesto ecoou em outros corpos, foi semente em movimento; no carnaval, surgem discípulos, refaz a pulsação.
Nos risos e estalos, a poesia da festa de chão; tradição do povo, em sua própria arte, do desvio sua consagração.
Mais do que personagem, Mateus constitui-se como princípio mediador, aquele que transita entre instâncias, articulando tensões entre ordem e desordem, entre o sagrado e o profano. Sua presença não apenas atravessa a narrativa, mas a funda. É ele o riso que desestabiliza estruturas, o corpo que improvisa diante do imprevisto, o gesto que anuncia a ruptura e, ao mesmo tempo, inaugura novas formas de continuidade. Em Triunfo, é por meio dele que o rito se flexibiliza, que o cortejo se expande e que a solenidade se converte em brincadeira. Vestido de cores intensas, com máscaras grotescas, trajes sobrepostos, tabuletas sonoras e o estalo marcante do relho, o Careta transforma a cidade em palco vivo. Sua presença instaura uma ambiguidade fundamental, onde riso e medo, fascínio e estranhamento, encantamento e tensão coexistem de forma indissociável. O corpo encoberto, o silêncio enigmático e a expressividade exagerada da máscara contribuem para a construção dessa figura liminar, que transita entre o lúdico e o perturbador.
“O estalido dos chicotes, o desenho das máscaras […] despertam sentidos e provocam emoções.”
A tradição não se define pela permanência rígida das formas, se regurgita pela sua própria potência. Nos Caretas de Triunfo, o passado se conserva na referência, porém se atualiza, se desloca e se recria, mantendo-se constante pois se permite transformar.
Nesse contexto, o medo não se configura como negação ou ruptura da festa, mas como parte constitutiva de sua dinâmica simbólica. Longe de ser apenas uma reação instintiva, ele opera como um dispositivo organizador da experiência coletiva, estruturando afetos e intensificando a vivência do carnaval. Conforme aponta a autora, o medo integra, ao lado da curiosidade e do orgulho, a tríade que sustenta o folguedo triunfense, funcionando como elemento que dinamiza a brincadeira, rompe a monotonia do cotidiano e ativa o imaginário social. Em perspectiva complementar, os estudos sobre mascarados em Pernambuco evidenciam que o medo é “um alimento que nutre a árvore das emoções”, atuando como catalisador sensível da experiência festiva.
A careta assusta e seduz.
O estalo do relho corta o ar como marca sonora de sua presença, enquanto os chocalhos anunciam sua aproximação, instaurando uma coreografia sensorial que atravessa a cidade. Ao som desses signos, Triunfo desperta: o medo se mistura ao prazer, e o desconhecido deixa de ser ameaça para tornar-se convite à participação. A experiência carnavalesca, assim, se constrói nesse jogo de tensões, onde o sensível se sobrepõe ao racional.
Nas ladeiras de Triunfo, o Careta não apenas desfila: ele narra. Narra a história de um povo que transforma dificuldade em invenção, escassez em potência estética e cotidiano em poesia. Seus gestos, sons, cores e movimentos compõem uma verdadeira dramaturgia popular, onde arte e vida se entrelaçam de forma inseparável. Assim, o carnaval triunfense revela-se não apenas como festa, mas como linguagem – um modo sensível de existir, de lembrar e de criar coletivamente; cada sujeito deixa de ser alguém para tornar-se personagem, signo e expressão de um imaginário compartilhado. Essa transfiguração amplia as possibilidades do corpo, permitindo novas formas de presença, de atuação e de relação com o outro.
É nesse falar que o sertão ganha voz. A máscara não silencia, comunica sem calar sujeitos.
O DESFILE: DA MÁSCARA AO MITO, DO SERTÃO À AVENIDA
Do nascimento ancestral das máscaras ao sertão encantado de Triunfo; do ritual ao riso; do medo ao prazer; do indivíduo ao coletivo – o desfile constrói uma narrativa que é, ao mesmo tempo, histórica, simbólica e sensível. Cada setor, cada ala, cada alegoria torna-se fragmento desse arco maior; aquele que não se sustenta por uma pedra isolada, mas pela relação entre todas elas. O Careta, figura central dessa travessia, emerge como síntese:
– é máscara e corpo
– é tradição e invenção
– é medo e alegria
– é sertão e mundo
No estalo do relho, a memória vibra.
No chacoalhar dos sinos, a cultura pulsa.
Na máscara, o rosto do povo se reinventa.
E assim, sob o mistério mascarado que chacoalhou o sertão, a Acadêmicos de Madureira faz do desfile um ato de celebração, resistência e poesia.
REFERÊNCIAS:
COSTA, Maria das Graças Vanderlei da. Os Caretas de Triunfo: a força da brincadeira. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Recife, 2007.
_________________________________. Lugares, tradições e rostos: máscaras no carnaval de Pernambuco, objetos que falam sem calar sujeitos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Recife, 2013.
FERREIRA, Hiago Martins. Os caretas de Triunfo/PE: revisitando a manifestação popular para a criação em dança. 2023.
LIRA, Emerson Douglas Alves. Os caretas do Nordeste (entre a Festa, as Máscaras e a Pedagogia). Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Uberlândia. Pós-Graduação em Artes Cênicas. Minas Gerais, 2024.
MARANI, Vitor Hugo; LARA, Larissa Michelle. Relações entre corpo e máscara no carnaval de Veneza. LICERE-Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 18, n. 1, p. 247-270, 2014.
SILVA, Vitória Cristina Keles da; PIMENTA, Rosana Aparecida; MELLO, Suélen Najara de. A Máscara e a Linguagem da Encenação no Carnaval de Veneza. A Luz em Cena, Florianópolis, v.5, n.10, dez. 2025.









