Agora Vai cantará o batuque no Carnaval Virtual 2026

Estreante no Grupo Especial, o GRESVSDQ Agora Vai apresentou o enredo que levará para a avenida no Carnaval Virtual 2026;

De autoria de Cláudio Daflon, a agremiação irá defender o enredo “De couro e alma”.

Confira a sinopse do enredo:

De couro e alma

Para o carnaval de 2026, o Agora Vai se inspira no samba concorrente do Império da Tijuca para o enredo Batuk (Carnaval de 2014), da parceria de Samir Trindade, Serginho Aguiar, Elson Ramires, Filipe Araújo, Jota e Alexandre Moreira.

Tudo começa na África, onde o primeiro som sentido e compreendido é o do coração, já pulsando em 2/4 (du-du; tum-tum), em sintonia com os surdos que hoje fazem o chão tremer na avenida…

Lá, os ritmos foram codificados e, desde então, reimaginados, dando origem àquela que, para nós, foi a grande criação humana: a linguagem dos tambores. Através deles, por milhares de anos, os criadores falaram, cantaram e pensaram em seus mundos; com o tempo, misturaram criações de dentro e de fora deles.

1) Origem? Tambores, corpos e mundos entrelaçados

Desde a sua invenção e a cada porrada no seu couro, o tambor tem sido a tecnologia do impossível: entrelaça tudo aquilo que, por muito tempo, a dureza de colonizadores travados e  desritmados julgou imiscível: o terreno e o divino, o corpo e a mente, o instintivo e o racional. Junta e mistura batuques cultivados em terras africanas desde tempos ancestrais, ritualizados e atualizados nos próprios corpos africanos, que, ao contrário da chave europeia do pecado e da vergonha, dançam como instrumentos de acesso aos prazeres e saberes.

Seus sons são sentidos, vividos e pensados. Por isso, além de múltiplos, são dinâmicos – pulsando em revolução permanente. Tem força e tem magia, pois, sim, o batuque tem o poder de curar e transformar tudo o que alcança.  

Logo oficial do enredo

2) Uma invenção para canto, dança, devoção e criação

Os tambores e seus ritmos, por definição, nunca são estáticos, e a inspiração que os cria pode até ser “uma luz que chega de repente”, mas ela vem de longe, muito longe, e vai longe, muito longe. São tecnologia comunicativa primordial: eles falam (e gritam) para que os pés daqui levantem poeira; para que outros, dali, escutem e se juntem; e também para que desçam, dançando, aqueles que vêm de lá, de Aruanda. Por serem capazes de mexer e misturar o daqui, o dali e o de lá, os tambores são invenções que estão sempre a inventar.

Para os seus inventores bantos, o tambor é ngoma; é, portanto, bem mais que o artefato tambor: é ritmo, dança e espiritualidade. O batuque é mediação entre o mundo visível e o invisível, para chamar inkisis como Aluvaiá, ligado aos caminhos, passagens e à comunicação entre mundos; e Nkosi, com ritmos fortes que remetem à guerra, à força e ao ferro.

Já na tradição dos seus inventores iorubás, Ayán (ou Àyàn) é o orixá que reside nos tambores que falam, a energia que garante a conexão com os ancestrais. Os tambores reverberam Exu, que é, afinal, mensageiro e regente das trocas sonoras que circulam entre mundos; e também Orunmilá, pois, assim como o Ifá, o som é ressonância de sua voz.

Os tambores são, portanto, artefatos mágicos. O batuque que ressoa deles forma uma gramática em constante evolução, com o poder de criar saberes, filosofias e mundos inteiros, além de ser capaz de curá-los, ao recriar, junto ao choro e à saudade, as existências roubadas pelo colonizador.

3) Revoluções, reconstruções e recosturas pelos batuques

A partir da captura e da travessia por Calunga, os batuques daqueles que sobreviveram passam a ser fundamento da reexistência, da reimaginação e da reconstrução de mundos roubados.

Irrompendo o silêncio imposto naquele cativeiro de valas e correntes, os tambores ressoam vida e liberdade, sendo parte fundamental da revolução que permitiu a reexistência e a reconstrução dos laços rompidos violentamente pela escravização. Após a captura e o tumbeiro, a vida pode novamente fazer sentido pelo dom da memória e da mistura tão bem expressos nos batuques e nos cantos que começaram a ser ouvidos nos portos de cidades como o Rio de Janeiro, Recife, Salvador e São Luís – revoluções sonoras que, um dia, pensadas em conjunto, iriam formar a batucada brasileira. Através da tecnologia e da magia dela, recosturam-se vidas, agora reconectadas à memória, livres do esquecimento e com sentidos refeitos. Os batuques venceram a morte e reorientaram o negro que chorou a ter esperança em futuros possíveis, apesar da dor e da saudade.

Desde a sua origem, “batucar” carrega a ideia de percussão corporal e instrumental, não apenas de “música” em sentido amplo. “Batuk” é verbo, do tronco banto – especialmente quimbundo, falado em Angola – associado a bater, golpear, percutir, sobretudo com as mãos; incorporado ao português já no século XVII. E até por isso, por ser verbo, não para nunca. Então veio a reação: colonizadores e elites colonizadas tentaram proibir os “instrumentos de pancadaria”. Percebendo-se incapazes, buscaram controlá-los, modificá-los, mas nada disso foi capaz de impedir o seu ecoar. Apesar de incessantes tentativas de repressão, silenciamento e apropriação, os batuques seguem florescendo nas ruas, terreiros e quintais, revolucionando e fazendo sorrir outra vez.

4) Coroação do batuk: o renascimento nesse congá do primeiro Império do samba

Talvez a maior invenção dos batuqueiros desde o batuque tenha sido o samba. Ele, que já nasce enfeitado de axé, já estava, de alguma forma, presente desde a origem do batuque. Dos morros e de outros quilombos modernos do Rio de Janeiro, o batuque do samba irrompe, impõe sua presença e então invade e moderniza uma cidade ainda negada à maior parte de seus habitantes – portanto, ainda arcaica.

Um desses “quilombos modernos” surge numa encosta da Floresta da Tijuca, que abrigava, desde o início do século XIX, antigos quilombos formados por escravizados fugitivos de fazendas da região. Em meio à mata, esses grupos resistiram, cultivaram suas roças e desafiaram a ordem escravista, prolongando sua presença e ressoando seus batuques mesmo no pós-abolição.

No Morro da Formiga, especialmente negro, fundaram o primeiro império do samba, o Império da Tijuca, que, desde os seus primeiros passos em 1940, letra e educa – como verdadeira escola – os seus crias e todo o resto da cidade sobre os saberes de batuque de couro, alma e madeira, dos quais é guardiã. É nesse terreiro que acontece o assentamento/firmamento, com base no respeito à tradição e à comunidade, onde o samba “assentado” respeita a ancestralidade e a origem e firma o axé, em permanente transformação.

Tudo começa e continua na África…

 

Author: Lucas Guerra

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