Arautos apresenta enredo sobre esperança e felicidade para o Carnaval Virtual 2026

Com a mensagem de afeto, esperança e felicidade,  o GRESV Arautos apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo de Acesso I 2026 no Carnaval Virtual.

De autoria de Fabio Granville, a agremiação irá defender o enredo “Eu só quero um xodó”.

Confira a sinopse oficial do enredo:

Eu só quero um xodó

“Que falta eu sinto de um bem…
Que falta me faz um xodó…”

Assim tocava na rádio enquanto aquela alma solitária era banhada pelo luar do sertão. A solidão em sua alma criou este agreste soturno e doído. Levando a vida assim tão só, a música era sua maior companheira e algumas costumavam sempre embalar sua alma para dias melhores, mas nenhuma mais que essa. “Eu só quero um xodó” fazia uma leitura perfeita do que se passava em seu macambúzio coração.

Observando a lua no céu, pensou no velho Lua, o rei do sertão, padrinho do compositor daquela música que entoava na rádio. Sabia do causo danado de bom por trás dela: uma música feita com dengo por Dominguinhos e sua esposa na época, Anastácia. Um dia, Dominguinhos, na sanfona, tocava uma nova melodia na sala enquanto ela cozinhava um peixe frito na cozinha. Anastácia sentiu xodó por aquele arrasta-pé, pegou seu caderninho, se alimentou de inspiração e ficou entre a frigideira e a escrita, um olho no peixe e outro na letra, e assim foi escrevendo esta música que ficou nacionalmente conhecida pela voz de Gilberto Gil e depois gravada por tantos outros cantores e cantoras. Enquanto a zabumba, o triângulo e o fole da sanfona preenchiam sua casa com aquela linda melodia, encantado por esse xodó, esperando na janela adormeceu e viajou em sonho…

Logo oficial do enredo

Um sonho sertanejo onde se viu numa festa junina. E no alto falante do local, ainda tocava aquela música divina:

“Eu só quero um amor, que acabe o meu sofrer…”

E por um momento, naquele sonho, esqueceu da solidão e resolveu aproveitar aquela fuzueira danada de boa. Nesse sonho pra lá de arretado, havia fartura de doces de abóbora em formato de coração, casais apaixonados dividindo a pipoca, a paçoca e a maçã do amor, uma carreira gigante na barraca do beijo e muitos xavecos em versinhos apaixonados através do correio elegante. Olha que isso aqui tá muito bom, pensou, mas queria também viver uma história de amor como aquela de Dominguinhos e Anastácia. E se fosse para sonhar, que este sonho então acontecesse naquele sonho, naquela festa, com aquela música. Orou para Santo Antônio, o santo casamenteiro, até que pegaram a sua mão para dançar o arraiá na quadrilha junina. E enquanto “Eu só quero um xodó” embalava a festa e seu coração, entre o anarriê e o balancê, formou-se um grande túnel, abriu-se uma grande roda e pegou-se o caminho da roça até se perceber diante do padre no momento de escolher entre o sim e o não naquela capelinha de melão.

Vixe Maria! Assim acordou de supetão, sabendo ser de São João e não de Santo Antônio, tal capelinha de cravo, de rosa e de manjericão. Que mentira, que lorota boa foi aquela!

Ainda era noite no céu e em sua alma, e a música continuava preenchendo o espaço vazio. A mesma música insistia em tocar na rádio com suas várias vozes, com seus vários estilos e suas mais de quatrocentas versões. Olhou em volta, contemplou sua vista estrelada emoldurada pelas flores de mandacaru que haviam acabado de “fulorar” na seca diante de sua vista.

Percebeu, então, que podemos ter um xodó por diversos meios.

Xodó pelos animais: a cabra que dava seu leite, a galinha com os ovos e o burrinho que ajudava no transporte, o bode que talvez nunca virasse buchada. Dentro de casa recebia também um xodó em forma de lambida de seus cachorros e gatos.

Observou em sua simples morada, aqueles objetos que também tinha um xodó: A viola onde dedilhava suas músicas favoritas; os livretos dos cordéis com os poemas que mais lhe causavam alumbramento; a colcha de retalho e as rendas que enfeitam os móveis da casa dando um colorido especial; o filtro de barro que deixava a água, algo tão precioso naquele lugar, mais fresca; o jogo de panelas que cozinhava o milho, a macaxeira e outros legumes de sua pequena horta, além do feijão, do arroz e da carne de sol num baião de dois que queria que finalmente fosse para dois.

Tudo que é feito por gente tem na sua matéria o xodó da alma.

Também tratava com xodó as fotos da família que contemplava com orgulho, pessoas emolduradas com tamanha delicadeza, retratadas com feições sérias e que enchiam a casa de saudade. E quando se tem saudade, é sinal que o amor já chegou ao coração. A saudade mais saudosa era o colo de mainha.

Deitou-se na rede ainda pensando no sonho que teve e o seu pensamento invadiu com o desejo de um dengo, de um chameguinho, de um xêro, de um cafuné quando fosse dormir. Quem sabe um café quando se levantar. Uma mão na mão, um abraço apertado, dançar forró colado. Quem não gosta de um xodó que vem do contato com outro ser humano?

A música de Dominguinhos e Anastácia tocou pela noite toda, madrugada adentro, e trouxe devagarzinho o sol luminoso. Atraídos pela bela música, vindo lá no horizonte ainda laranja, arautos de boas novas, uma caravana capitaneada por uma onça que caminhava feliz em direção à casa para levar uma boa mensagem àquela alma boa e solitária: ninguém deve levar a vida assim tão só! Todo mundo depende de todo mundo e é por isso que sempre buscamos um xodó na música, nos objetos, nos animais, na natureza, nas pessoas, na família, na comunidade.

A caravana da boa esperança viaja pelos confins sertanejos, pelos lugares que se anda só, para convidar a todos a subir no pau de arara da alegria rumo à felicidade. Pra sorrir e cantar, tanta coisa a gente inventa e nos sertões das almas confinadas, desacompanhadas em suas casas, quando o sol finalmente brilha, quando o tempo se faz quente e o dragão voraz abranda o frio da solidão, vem a Arautos chamar a todos, no ritmo dessa música de Dominguinhos e Anastácia, para serem realistas esperançosos e seguirem viagem na estrada da vida.

Faz da Arautos seu mais novo xodó!

Traz o seu radinho de pilha, embarque nessa caravana e segue cantarolando:

“Eu só quero um amor que acabe meu sofrer,
um xodó pra mim do meu jeito assim
Que alegre o meu viver”

 Fabio Granville
2026

Author: Lucas Guerra

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