Conto de Anansi é o enredo da Belas Artes para o Carnaval Virtual 2026

Buscando chegar ao Grupo Especial, a ACSCES Belas Artes apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo de Acesso I, no Carnaval Virtual 2026.

De autoria de Igor Cesar Cine, a agremiação irá defender o poder da comunicação com o enredo “A Teia do Destino – O Verbo de Anansi na Trama do Universo”.

Confira a sinopse do enredo:

A Teia do Destino – O Verbo de Anansi na Trama do Universo

Resumo: Em 2026, a ACSCES Belas Artes falará sobre o poder da comunicação na história da humanidade, através do conto de Anansi. Ilustraremos a transição do silêncio para a palavra, e o poder soberano da comunicação na narrativa do mundo.

Nossa viagem se iniciará na morada de Nyame, o Deus Supremo, detentor de todas as histórias, e narraremos a odisseia de Anansi para conquistar o direito ao saber. Um enredo que provará que a palavra não é apenas som, mas o fio sagrado e eterno que tece a nossa própria existência.

Capítulo I: Gênese: O Silêncio no Trono de Nyame

No princípio, o mundo era um deserto de ecos, mergulhado em um silêncio absoluto onde a memória não tinha onde repousar. Todas as histórias estavam trancafiadas em um baú sob o trono de Nyame, o Deus Supremo do Céu. Sem a narrativa, o mundo era estático; não havia passado, apenas um presente vazio.

Kwaku Anansi, o mestre da engenharia social, desafia a divindade desejando o poder de reger a narrativa do mundo. Nyame, diante de uma criatura tão pequena, decide testar sua astúcia impondo uma condição: Anansi teria que conseguir capturar as três forças que dominavam a terra e silenciavam o espírito: o ego (Onini), a fúria (Osebo) e a maledicência (Mboro).

Logo oficial do enredo

Capítulo II: A Captura dos Elementos – O Poder da Palavra, A Palavra sem Poder

Anansi inicia sua busca, caindo sobre uma densa floresta, em solo africano — sendo este o solo-berço de toda a humanidade.

Primeiro, ele encontra Onini, a cobra pitão, que representa a palavra distorcida pela traição e pelo ego. Onini acreditava ser maior que todos, uma autossuficiência que a cegava. Anansi, bem menor que ela, não usou a força, mas o desafio verbal: “Será você maior que o próprio bastão da vida?”. Ao aceitar ser “medida” para provar sua superioridade, Onini permite que Anansi a amarre ao bambu. Aqui, a palavra articulada (astúcia) vence o ego.

Em seguida, encara o leopardo Osebo, a personificação da fúria cega. Osebo representa a palavra sem inteligência: ele tem o rugido que amedronta, mas não tem a sabedoria que constrói. Anansi cava um buraco e o cobre; ao cair, Osebo fica preso e isolado, tornando sua força inútil. A aranha oferece suas teias como “ajuda”, apenas para içar o leopardo e transformá-lo em prisioneiro suspenso. A inteligência prova que o rugido é apenas barulho se não houver pensamento por trás dele; não basta ter apenas força se não tiver sabedoria.

Por fim, captura os marimbondos Mboro, que simbolizam a fofoca e a maledicência — palavras que ferem e se espalham como pragas. Usando uma cabaça de água para simular uma tempestade, Anansi convence o enxame de que o caos é iminente e que apenas o seu abrigo pode salvá-los. Ao entrarem, ele os sela. O ruído desordenado e tóxico agora pertence ao domínio de Anansi.

Vencendo os desafios, Anansi torna-se detentor do poder, deixando-os guardados em uma cabaça, onde apenas ele tinha acesso e controle. Anansi tenta subir na Árvore Sagrada Odum carregando a cabaça de histórias no peito, mas o volume da cabaça o impede de abraçar o tronco. Anansi compreende a lição final: a sabedoria só ganha vida quando é libertada e compartilhada com o mundo. Assim, Anansi liberta o conhecimento e começa a andar pelo mundo para espalhar sua sabedoria.

Capítulo III: O Fio que Atravessa o Mar: A Palavra é Resistência

Com o passar do tempo, Anansi vê seu povo ser arrastado para o oceano, presos em navios e correntes. Seus filhos perdiam novamente o poder das palavras e da narrativa de sua própria existência pela escravidão. E nesta tormenta que desbravava o Novo Mundo, surge no horizonte o pássaro Sankofa: o guardião que ensina ao seu povo que “não é pecado voltar e recuperar o que foi esquecido”.

Assim, mesmo sob o jugo das correntes, as línguas de seu povo não se calaram. A resistência floresceu através dos Griôs, que transformaram a dor em Itã (histórias sagradas) e o lamento em música e ritmo. E nos lugares onde a fala era proibida ou silenciada pelas mordaças, a palavra não-verbal resistiu: a geometria dos panos (Adinkras), as estampas e os símbolos contavam segredos e eternizavam histórias através da imagem. Os fios da aranha embaraçaram-se aos fios de algodão manchados de sangue, tecendo uma narrativa de luta que o tempo jamais apagaria. Assim, o verbo torna-se eterno e um ato de resistência.

Capítulo IV: Globalização: A Conexão da Palavra

Na modernidade, a teia de Anansi revela-se como o precursor da rede mundial. O que antes era seda, hoje é fibra óptica e impulsos de LED que cruzam metrópoles. O desejo de conexão, presente desde o Gênese, eternizou-se ao longo da história através de pergaminhos, livros e, posteriormente, podcasts, filmes, séries e as telas da era moderna.

Em meio às divergências sociais da globalização, os filhos de Anansi fazem do Samba a sua ágora. O Carnaval devolve a voz aos invisíveis vítimas do mundo capitalista, tornando-se o palco onde a comunidade esquecida e menos vista ganha as telas e a voz da narrativa em seu país.

O Epílogo: A Grande Teia Cósmica

Assim, Anansi deixa de ser uma figura antropomórfica para se tornar a própria arquitetura do universo. Seus fios transformam-se em filamentos galácticos que costuram constelações. A aranha funde-se ao cosmos. Tornou-se ele a própria rede de conexões sociais, ancestrais e tecnológicas que mantém a humanidade viva, dona da narrativa da humanidade.

Referências Bibliográficas:
RATTRAY, R. S. Akan-Ashanti Folk-Tales. Oxford: Clarendon Press, 1930.
PELTON, Robert D. The Trickster in West Africa: A Study of Mythic Irony and Sacred Delight. University of California Press, 1980.
NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo. Editora Vozes, 1980.
BÂ, Amadou Hampâté. Kaydara. O tecelão da memória viva (Tradução de Lylia Gallo). São Paulo: Editora Palas Athena, 2003.

Author: Lucas Guerra

Share This Post On