Estreando no Grupo Especial, o CCJ Dom João apresentou o enredo que levará para a avenida no Carnaval Virtual 2026.
De autoria de Diego Martind, a agremiação irá defender o enredo “Kiribasawa Yúri Yí-Itá – O Canto ;Que Ecoa das Águas: Suraras”.
Confira a sinopse do enredo:
Kiribasawa Yúri Yí-Itá – O Canto ;Que Ecoa das Águas: Suraras
Enredo em homenagem as suraras, uma viagem encantada nas músicas e contos que elas espalham por aí, mundo afora.
SINOPSE
Silêncio.
Ouçam o que dizem as águas do Tapajós.
Antes do verbo, veio o rio. Antes do passo, veio a correnteza. Nas margens de areia branca de Alter do Chão, onde o sol beija o espelho d’água, reside uma força antiga, um segredo guardado por séculos. O nome dessa força é Kirĩbasawa.
A Dom João pede licença aos Encantados e aos donos da terra para contar uma história de metamorfose e poder. Vamos narrar o despertar das mulheres que ousaram tocar o couro proibido do tambor. Mulheres que fizeram de sua voz, correnteza; de sua saia, redemoinho.
Esta é a saga das Suraras do Tapajós. Não apenas o grupo que canta, mas o espírito guerreiro que encarna nelas. Do fundo do rio à copa das árvores, do cotidiano ribeirinho à explosão da festa: o nosso carnaval vai desaguar no mar da avenida.
SETOR 1: A ENCANTARIA E O MITO – O NASCIMENTO NAS ÁGUAS
Mergulhamos.
Tudo começa no azul profundo e misterioso. No ventre do rio, a vida pulsa em nheengatu. É ali, no reino submerso, que habita a Grande Cobra, a Boiúna. Ela não é monstro; é mãe, é mistério, é a Serpente Mulher que seduz e amedronta, cujos olhos brilham como faróis na escuridão líquida.
As águas se agitam. Nossas baianas, Mães D’Água, giram como a espuma que se forma no encontro dos rios. Dentro desse cenário fantástico, surgem seres híbridos, escamas que viram pele, barbatanas que viram braços. É o ritual de Kirĩbasawa, a força que emana das águas e purifica o caminho. O mito se faz presente: a serpente desperta e, ao subir à superfície, traz consigo a melodia ancestral que vai guiar nosso povo.
SETOR 2: SEGREDOS DA MATA – O SANTUÁRIO VERDE
A serpente toca a terra e a floresta responde.
Entramos no templo de clorofila. Aqui, o verde é infinito e o silêncio é prece. A mata não é apenas cenário; é entidade viva. Entre Samaúmas gigantes e cipós que abraçam o céu, olhos invisíveis nos observam. São os Segredos da Floresta.
Curupiras, Caiporas e espíritos guardiões caminham entre nós. É a Amazônia intocada, farmácia de Deus, onde cada folha cura e cada raiz conta uma história. O ambiente é de respeito e temor sagrado. Pássaros de plumagens vibrantes riscam o ar, anunciando que este solo tem dono. Quem pisa aqui, pisa macio. A natureza, exuberante e soberana, estende seu manto para proteger aqueles que sabem ouvi-la.
SETOR 3: COTIDIANO, LUTA E RESISTÊNCIA – O SOLO SAGRADO
Mas a calmaria do rio e o silêncio da mata são rompidos.
Na beira do rio, a mulher ribeirinha lava a roupa, pesca o sustento e trança a palha. A simplicidade da vida se mistura com a dureza da sobrevivência. São as Suraras da Beira do Rio. Mãos calejadas que conhecem a textura do peixe e o peso do balde.
Porém, o perigo ronda. A ganância do “Kariwa” (o homem branco invasor) ameaça a aldeia. O céu escurece, não de chuva, mas de fumaça. É hora da transformação. A ribeirinha larga a trouxa de roupa e empunha a lança. Ocorre a metamorfose: nasce a Guerreira Surara. Pintadas de urucum e genipapo, com o grafismo da guerra na pele, elas formam uma barreira intransponível. Aqui não! O território é sagrado, a terra é demarcada com suor e sangue. A nossa escola se veste de vermelho e palha para gritar que a Amazônia resiste. Onde houver invasão, haverá a força da mulher indígena.
SETOR 4: O BATUQUE E A CELEBRAÇÃO – A FESTA EM ALTER DO CHÃO
A luta garante a vida, e a vida pede festa!
Vencida a batalha, o sol se põe dourado na praia de rio e o som ecoa. O couro do curimbó, antes tocado apenas por homens, agora vibra nas mãos delas. É o Som do Curimbó que convida o mundo para dançar. Alter do Chão vira um grande terreiro a céu aberto. As saias de chita rodada levantam a poeira, as fitas coloridas cortam o vento. É o Batuque de Alter, profano, alegre, suado e feliz. Os passistas riscam o chão, a bateria cadencia o ritmo frenético do carimbó que conquistou o mundo.
A Dom João 2026 encerra seu desfile em êxtase. As Mãos da Esperança plantaram o futuro e agora colhem alegria. As Suraras do Tapajós, reais e divinas, são a prova viva de que a tradição se renova. O canto delas ecoou, as águas nos abençoaram, e a nossa escola faz a festa da cultura popular brasileira.
Gira a saia, bate o tambor! A força das águas inundou a avenida!
Carnavalesco Diego Martins









