Hélio Oiticica será enredo da Falange Imperial no Carnaval Virtual 2026

Disputando o Grupo de Acesso I do Carnaval Virtual, o GRES Falange Imperial irá homenagear Hélio Oiticica na avenida em 2026.

De autoria de Marcos Oliveira e Luiz Araújo, a agremiação irá defender o enredo “Parangolé, Hélio: Marginal, Transgressor & Artesão”.

Confira a sinopse oficial do enredo:

Parangolé, Hélio: Marginal, Transgressor & Artesão

Introdução

A G.R.E.S. Falange Imperial apresenta à passarela virtual uma proposição estético-política que transcende a biografia linear para investigar o fenômeno da criação na obra de Hélio Oiticica (1937-1980). Em um momento histórico onde a cultura é frequentemente reduzida ao espetáculo de consumo, nosso pavilhão evoca a potência do “estado de invenção”, propondo o carnaval como a materialização definitiva do sonho oiticicano: a fusão irreversível entre a arte e a vida.

A narrativa se fundamenta na ruptura radical operada pelo artista na década de 1960, exigindo não mais um espectador passivo, mas um participador ativo. O enredo se estrutura sobre três eixos conceituais, a Marginalidade Ética, a Transgressão Estética e o Artesanato do Comum, para demonstrar como o Parangolé deixa de ser um objeto para se tornar uma “totalidade-obra”, uma experiência vivencial que só se completa no ato dionisíaco da dança e na fricção com a realidade social brasileira.

  1. A Marginalidade como Ética e a Recusa do Folclore

O primeiro movimento de nossa defesa situa Hélio Oiticica diante do abismo social do Rio de Janeiro. Sua subida ao Morro da Mangueira em 1964 foi uma “necessidade vital de desintelectualização”. Oiticica buscava libertar-se da “excessiva intelectualização” que o asfixiava na arte burguesa. Ao tornar-se passista da Estação Primeira, buscava compreender sua “arquitetura orgânica”, onde o barraco é uma estrutura em constante devir, baseada na improvisação e na sobrevivência.

Para a Falange Imperial, Hélio é o Marginal não no sentido criminal, mas como aquele que habita a margem, recusando o centro hegemônico. Sua obra denuncia a “folclorização opressiva” da cultura brasileira, propondo, em contrapartida, a busca pela “raiz-Brasil” subterrânea e convulsiva. A escola de samba é apresentada aqui não como um cartão-postal, mas como um laboratório de estruturas universais de criatividade, onde a precariedade material é transmutada em potência estética através da “estética da ginga”.

  1. O Parangolé e a Transgressão Institucional

No coração do enredo está o Parangolé. Apropriando-se de uma gíria das ruas que significava “agitação súbita” ou “situação inesperada” , Oiticica criou capas, estandartes e tendas que são, por definição, “antiarte por excelência”. A defesa do enredo postula que o Parangolé opera uma “transmutação expressivo-corporal”: ele exige que o corpo se movimente, que dance, para que a estrutura-cor se revele.

A Falange Imperial dramatiza o conflito institucional exemplificado pela expulsão dos passistas da Mangueira do Museu de Arte Moderna (MAM) em 1965. Aquele ato revelou que, para Oiticica, o museu havia se tornado um mausoléu. Ao serem barrados, os passistas provaram que a verdadeira arte estava do lado de fora, na rua, no corpo que “incorpora a revolta”. Neste contexto, a relação entre o artista e o participador é análoga à metáfora da luva proposta por Lygia Clark: uma estrutura que só existe quando habitada por uma mão viva, onde o interior e o exterior se fundem.

  1. O Artesão do Caos e o Delírio Ambulatório

Por fim, exaltamos Hélio como o Artesão que encontra a poesia na anonimidade. Inspirado no conceito de “Crelazer”, a fé no lazer criativo e na não-atividade produtiva, e pela prática do “Delirium Ambulatorium”, o artista perambula pela cidade coletando fragmentos do real. A Falange Imperial traz para a avenida a poética da “lata-fogo” , a iluminação improvisada das obras viárias que Hélio elevou à categoria de obra de arte anônima, “isolada na anonimidade de sua origem”.

O desfile culmina na transformação da avenida em um “Mito Vadio”. O delirium é o método de caminhar sem destino, de coletar “fragmentos-tokens” como o asfalto da Avenida Presidente Vargas ou a terra do morro, ressignificando o entulho urbano como relíquia sagrada. Ao fazer isso, Oiticica decreta que “o museu é o mundo”.

A Falange Imperial, portanto, convoca sua comunidade a vivenciar o legado de Hélio Oiticica. Em 2026, nosso desfile é um ato de “incorporação”, onde a escola de samba se reafirma como o maior de todos os Parangolés: uma estrutura viva, efêmera e eterna enquanto dura, feita de povo, suor e invenção.

Logo oficial do enredo

Sinopse

A Ruptura do Quadro

 Chegou a hora de quebrar o vidro da moldura.

Hora de reimaginar o imaginável, vestir-se de cor e negar o imóvel, o estático, o intocável.

Que caiam as paredes dos museus!

Que se erga, no lugar delas, a arte-viva, aquela que pulsa no chão quente das ruas, no suor do povo, no grito do morro.

Hoje, proclamamos o fim da “arte de assistir”!
Anunciamos o nascimento da arte de ser.

Chamamos, como guia, Hélio Oiticica,
marginal iluminado, artesão de delírios, alquimista da matéria brasileira.
Transgressor e transfigurado,
criador e criatura,
herói e heresia,
arauto de um Brasil que ousa ser Brasil.

Começamos onde a moldura termina.
O que vale é a mistura.
É o povo que pinta, é o povo que dança, é o povo que inventa.

Hoje, deixamos de ser espectadores:
renascemos sambistas, artistas populares, Participadores!

Renascido em Mangueira

No caminho da arte possível, seguimos os passos do nosso guia.

Nascido na intelectualidade, Hélio buscou um Brasil que respondesse sua inquietação.
E, como tantos de nós, foi no verde e rosa de Mangueira que encontrou seu destino.

Ali, o morro era arquitetura viva,
organismo pulsante que cresce, se refaz, resiste.
Ali, a escola de samba era laboratório de alegria,
oficina do improviso, templo do movimento.

No abraço do morro, Hélio se inicia numa jornada bacante,
onde a arte abandona a vitrine
e renasce como estratégia de existência.

O povo lhe ensina o que nenhum ateliê ousou mostrar:
que a vida é obra, e a obra é vida.

A Bandeira do Corpo Livre

 Da fusão entre a vanguarda e a favela, surge o estandarte revolto:
o Parangolé.

Nascido da rua, batizado pelo corpo,
mais que fantasia: grito, bandeira, MANIFESTO!

A capa que possui o corpo.

Proibida, rejeitada nos museus, a arte não baixou a cabeça.
Ela simplesmente saiu, e aconteceu na marra, nos jardins, ao som dos pandeiros e frigideiras.

Foi ali que o Parangolé virou revolta encarnada:
a anti-arte que desafia o medo,
a invenção do marginal que vira mito,
a obra que grita contra o luxo asfixiado dos palacetes da intolerância.

Arte não pede licença. Arte invade. Arte acontece.

Devorando o Brasil

 Mergulhemos então no Brasil!

Hélio devora a imagem do país para vomitá-la recriada.

Não queremos araras e bananeiras para turista ver!
Queremos a Tropicália como expressão de nossa própria identidade.

Celebramos a estética do precário.
A “Lata-Fogo” , aquela chama solitária que ilumina obras na estrada,
é elevada à categoria de escultura, feita por mãos anônimas.

Homenageamos a figura do “Marginal”,
o sujeito da borda, do abismo,
do fio da navalha.

Cara-de-Cavalo, o bandido-mártir, se transforma em ícone pop num altar pagão.
É a “Manhattan Brutalista” feita de cacos de asfalto da Presidente Vargas.

É a beleza convulsiva de um país que se faz nos escombros.

 Delirium Ambulatorium

 No fim, tudo se dissolve.

Não há quadro, não há objeto, não há templo.
O que sobra é o caminhar.

O Delirium Ambulatorium é a obra peregrina:
vadiar pela cidade, catar fragmentos do chão,
“um punhado de terra, um pedaço de calçada”
e transformá-los em sagradas relíquias do cotidiano.

A avenida, então, vira território de mitos vadios.

Hélio ressurge delirante,
misturado ao cascalho da obra urbana,
profanando com alegria, santificando com carnaval.

O museu ruiu.
As paredes caíram.

E, enfim, entendemos:
“O Museu é o Mundo.”

Aqui, criação não é de um gênio isolado,
é do coletivo, da comunidade, da massa inventiva.

A passarela é o nosso chão.
O samba é o nosso parangolé.
E cada componente é Participador dessa grande intervenção urbana chamada Carnaval.

Salve, Hélio!
Teu delírio nos guia.
Teu corpo vibra no nosso.
Teu Brasil é o nosso Brasil possível.

Referências:

ANJOS, Moacir dos. As ruas e as bobagens: anotações sobre o delirium ambulatorium de Hélio Oiticica. ARS, São Paulo, ano 10, n. 20, p. 23-44, 2012.

RIVERA, Tania. Hélio Oiticica: a criação e o comum. Viso: Cadernos de estética aplicada, Rio de Janeiro, v. 3, n. 7, p. 13-27, jul./dez. 2009. Disponível em: http://www.revistaviso.com.br/. Acesso em: 06 dez. 2025.

SILVA, Renato Rodrigues da. O Parangolé de Hélio Oiticica e a arte da transgressão. Concinnitas, Rio de Janeiro, v. 1, n. 32, p. 287-320, ago. 2018.

SOUZA, Gabriel Girnos Elias de. A transgressão do “popular” na década de 60: os Parangolés e a Tropicália de Hélio Oiticica. Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo, São Carlos, n. 3, p. 86-103, 2006.

TEIXEIRA, Amanda Gatinho. Um olhar sobre a poética dos Parangolés de Hélio Oiticica. Arteriais, Belém, n. 4, p. 51-59, jul. 2017.

Author: Lucas Guerra

Share This Post On