Chegando ao 6º desfile no Carnaval Virtual, o GRESV O Amor da Minha Vida apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo de Acesso I, no Carnaval Virtual 2026.
De autoria de Rômulo Vieira e Gilce Vieira, a agremiação irá defender o enredo “Nas águas dessa baía…”.
Confira a sinopse do enredo:
Nas águas dessa baía…
Nas águas dessa baía…
Nas águas dessa baía repousa um tempo mais antigo do que qualquer mapa.
Antes que o nome fosse dado, antes que a história fosse escrita, o oceano encontrou passagem entre as montanhas e avançou sobre a terra. Lentamente, o mar ocupou antigos vales, moldou o relevo e abriu na pedra um vasto espelho de águas.
Entre gigantes de granito que guardam a entrada do Atlântico, nasceu a Guanabara.
Um ventre de sal e silêncio, onde o mundo começou a ganhar forma e o tempo passou a guardar suas primeiras memórias.
Nas águas dessa baía, a terra despertou.
Ali, entre marés e profundezas, o mundo não surgiu de uma única criação, mas de um movimento contínuo. As águas respiram, avançam, recuam, e nesse fluxo eterno fazem nascer a vida. Entre correntes e espumas, o invisível também se manifesta.
Lendas atravessam as ondas, entidades percorrem o fundo das águas, e antigas imagens de criação, como a serpente que conduz caminhos e mundos, ecoam como memória ancestral. A Guanabara surge, assim, não apenas como paisagem, mas como território de mistério, onde o real e o imaginado se entrelaçam.
Nas águas dessa baía, a vida encontra seu primeiro abrigo.
Muito antes da cidade, muito antes das muralhas e das disputas, povos originários reconheceram, nesse espelho d’água, um lugar de pertencimento. A baía não era um recurso, era casa.
Seus habitantes aprenderam a ouvir suas águas, a entender o ritmo das marés, a atravessar suas enseadas em canoas, a colher do mar o sustento e a viver em equilíbrio com o manguezal, ventre fértil onde a vida se multiplica.
Ali, entre raízes, correntes e cantos, a existência humana se organizava em comunhão com a natureza.
Nas águas dessa baía, viver era saber escutar.
Mas um dia, o horizonte se transformou.
Velas surgiram no mar.
Navios atravessaram a entrada estreita da baía trazendo consigo outros olhares, outras intenções e outros destinos. O que antes era mundo passou a ser visto como território a conquistar.
O encontro não foi reconhecimento, e sim estranhamento.
O diálogo não foi possível, e a cobiça falou mais alto.
Nas águas dessa baía, dois mundos se cruzaram… e não se entenderam.
Vieram então as disputas.
Franceses e portugueses avançaram sobre a Guanabara, e povos indígenas resistiram como puderam, defendendo suas terras, suas águas e suas formas de existir.
As águas que antes embalavam a vida tornaram-se cenário de conflitos, alianças forçadas e batalhas que marcaram profundamente esse território.
Fortalezas ergueram-se sobre as pedras, armas cruzaram as marés e a baía passou a carregar, em si, as primeiras feridas da história colonial.
Nas águas dessa baía, começou a ruptura.
E ainda assim, a vida seguiu.
Ao redor dessas águas nasceu uma cidade.
As margens foram ocupadas, os portos se abriram e a Guanabara tornou-se caminho de embarcações, centro de trocas e eixo de transformação. Por suas águas chegaram mercadorias, ideias, culturas e também a dor da diáspora africana.
Homens e mulheres arrancados de suas terras cruzaram o oceano e encontraram na baía não apenas o sofrimento da chegada, mas também o ponto de partida de uma profunda reinvenção cultural.
Entre cais, ruas e terreiros, a cidade cresceu marcada por encontros, conflitos e resistências.
O tambor ecoou nas margens, a fé ganhou novos caminhos, e a cultura se reinventou em meio às águas.
Nas águas dessa baía, o mundo se misturou.
Mas o tempo avançou, e com ele vieram novas transformações.
A cidade cresceu, expandiu-se, industrializou-se. O progresso prometia avanço, desenvolvimento e modernidade.
No entanto, esse avanço carregava consigo um custo silencioso.
As águas que antes acolhiam a vida passaram a receber o peso do descuido. Rios adoecidos desaguaram na baía, o lixo acumulou-se, o óleo manchou as marés, e o equilíbrio que antes sustentava a vida começou a se romper.
A Guanabara, que já foi ventre e abrigo, passou a carregar em si as marcas da negligência.
Nas águas dessa baía, o progresso também feriu.
A vida sentiu.
Peixes desapareceram, aves perderam seus espaços, o mangue sofreu, e a natureza passou a revelar as consequências dessa relação desequilibrada.
O que antes era abundância tornou-se alerta.
O que antes era fluxo de vida tornou-se sinal de urgência.
Mas a história dessas águas não termina na dor.
Mesmo ferida, a baía resiste.
Entre manguezais que renascem, entre correntes que insistem em fluir, entre espécies que ainda sobrevivem, a Guanabara continua viva.
Há quem cuide, há quem preserve, há quem lute para que essas águas não se percam.
E há, sobretudo, a própria força da natureza, que insiste em brotar, regenerar e permanecer.
Nas águas dessa baía, a vida ainda pulsa.
E é nessa permanência que nasce o futuro.
Um futuro que não é dado, mas construído. Um futuro que depende da memória que carregamos, das escolhas que fazemos e da relação que decidimos reconstruir com esse território.
A Guanabara segue como espelho do tempo: refletindo o passado, revelando o presente e convocando o amanhã.
Porque nas águas dessa baía vivem histórias de origem, de luta, de dor, de mistura e de esperança.
Histórias que não se encerram.
Histórias que continuam a navegar, a resistir e a renascer,
nas marés eternas da Guanabara.
JUSTIFICATIVA DO ENREDO
Nas águas dessa baía…
A escolha deste enredo nasce de um momento de reconstrução e afirmação da escola. Diante dos desafios recentes, surge o desejo de retornar ao grupo especial com um desfile que una força estética, profundidade narrativa e conexão direta com a identidade do território que nos cerca.
Ao eleger a Baía de Guanabara como tema, a escola propõe mais do que revisitar um cartão-postal: revelar a baía como personagem central da história. Não como cenário, mas como corpo vivo, testemunha e agente das transformações que moldaram a cidade e sua gente.
Falar da Guanabara é falar de um espaço onde natureza, cultura e história se entrelaçam. Suas águas guardam séculos de memória, encontros, conflitos e modos de vida que contribuíram para a construção da identidade carioca e fluminense. No entanto, muitas dessas narrativas foram silenciadas ou reduzidas a fragmentos na história oficial.
Este enredo propõe lançar um novo olhar sobre essas camadas invisibilizadas. Nas águas dessa baía viveram povos originários que estabeleceram uma relação profunda de escuta e equilíbrio com a natureza. Por essas mesmas águas chegaram embarcações estrangeiras, trazendo disputas territoriais, rupturas violentas e o início de um processo de transformação irreversível.
Nas águas dessa baía travaram-se batalhas, ergueram-se cidades e consolidou-se um dos principais eixos de circulação cultural do país. Foi por meio delas que o Rio de Janeiro se constituiu como espaço de encontros e contrastes, marcado pela presença africana, cuja chegada forçada deixou marcas profundas e também deu origem a uma das mais potentes matrizes culturais brasileiras.
Ao longo do tempo, a Guanabara deixou de ser apenas abrigo e passou a refletir as contradições do próprio desenvolvimento urbano. O crescimento desordenado, a industrialização e o descaso ambiental transformaram suas águas, antes símbolo de abundância, em território de feridas visíveis.
Ainda assim, a baía resiste.
Mesmo diante das agressões, seus manguezais ainda respiram, sua biodiversidade ainda pulsa e suas águas continuam sendo espaço de vida, cultura e espiritualidade. É nessa permanência que o enredo encontra sua dimensão contemporânea: não apenas denunciar, mas convocar.
Mais do que narrar fatos, este desfile propõe mergulhar na memória líquida da Guanabara. Cada setor revela um estado dessas águas ao longo do tempo: origem, harmonia, ruptura, transformação, degradação e resistência.
Porque nas águas dessa baía não existem apenas paisagens.
Existem histórias que nascem, se cruzam, se ferem e se reinventam.
Existem vozes que ecoam entre marés e montanhas.
E existe um chamado.
Um chamado para olhar, lembrar e cuidar.
Porque tudo o que fomos, tudo o que somos e tudo o que ainda podemos ser… continua a viver nas águas dessa baía.









