15ª colocada na edição 2025, o GRESV Primeira Estação do Samba apresentou o enredo que disputará o título de campeã do Grupo Especial, do Carnal Virtual.
De autoria de João Canavarros, a agremiação irá defender o enredo “A Santa da Ponta D’água”.
Confira a sinopse do enredo:
A Santa da Ponta D`Água
O sertão é, antes de tudo, resistência. Quando a seca chega, não chega sozinha traz consigo o silêncio dos açudes vazios, o mugido fraco do gado, o estalo da terra abrindo feridas. O sol não nasce: incendeia. O vento não sopra: arrasta poeira e destino.
“Meu Divino Pai Eterno,
mande chuva pra esse chão,
molhe a roça do pequeno
e alivie o coração.”
Assim rezam as bocas rachadas do povo. Foi num desses tempos de céu fechado para a misericórdia que, nas cercanias de Exu, surgiu uma mulher. Ninguém soube dizer de onde vinha. Talvez viesse de muitas secas. Talvez carregasse no corpo a soma das retiradas, dos flagelados, das mães que atravessaram léguas com filhos nos braços e esperança no olhar. Trazia um bebê, ainda em seus primeiros meses, colado ao peito seco. Caminhava como quem já entregou quase tudo, menos a fé. Ao avistar o casarão nas imediações do Genipapo, subiu a escadaria como quem sobe o altar de uma igreja. Bateu à porta com os nós dos dedos trêmulos.
“Pelo amor de Nosso Senhor,
valei-me Nossa Senhora,
há três dias não como nada,
socorrei esta mãe agora.”
Quem atendeu foi o coronel, dono de terras vastas, de gado numeroso, de muitos homens a seu serviço. Homem de autoridade, mas não de compaixão naquele instante. Ela pediu alimento. Ele ofereceu moedas. O cobre brilhou no sol duro do meio-dia. Mas fome não se mata com metal. Desesperada, ela respondeu que sua fome era de pão, não de cobre. A porta se fechou. E o barulho ecoou como sentença. A mulher seguiu, com o filho nos braços, rumo a um baixio que reluzia ao longe. Talvez água. Talvez sombra. Talvez milagre.
“São José, meu padroeiro,
não me deixe padecer.
Se faltar força no corpo,
que não falte o crer.”
Mas o corpo tem limite. A fé, às vezes, é maior que a carne. Na localidade conhecida como Ponta D’Água, a mulher caiu. O chão quente recebeu seu peso leve. O sopro vital se foi como vento que se dissipa na caatinga. O menino, alheio à morte, buscava o seio que já não respondia.
Horas depois, um viajante encontrou a cena. Levou a notícia ao coronel. Falou da mulher morta. Da criança órfã. Do sertão testemunhando mais uma dor.
Só então o coração do homem estremeceu. Mandou buscar mortalha e rede em Exu. Providenciou o enterro. Cumpriu o ritual que a vida lhe negara. À noite, jantou. Dormiu. Mas o sertão guarda mistérios que não se explicam. Ao amanhecer, diante da porta do casarão, estavam dobradas a rede e a mortalha usadas no sepultamento. Sobre elas, as mesmas moedas dadas como esmola. Era como se a seca tivesse devolvido a resposta. Era como se o invisível tivesse falado. O coronel adoeceu dos nervos. Sobre seu fim, o tempo não registrou com clareza. Quanto à criança, o destino se perdeu nas veredas da história. Mas a mulher, ah! essa o povo não esqueceu. Seu túmulo tornou-se chão de promessa. Vela acesa em noite escura. Ponto de romaria. Gente simples passou a chamar-lhe Santa da Ponta D’Água. Dizem que graças foram alcançadas. Que doenças cessaram. Que chuva caiu após novena. Que mães aflitas encontraram consolo. Ex-votos se acumulam: fotos, fitas, cartas, pequenos objetos deixados em gratidão.
Porque no sertão, quem sofre demais vira intercessor. A história daquela mulher não é só dela. É de todos os nordestinos que enfrentaram a seca com fé maior que a fome. É das retiradas, dos paus-de-arara, das mães que enterraram filhos e dos filhos que enterraram mães. É da resistência de um povo que aprende a plantar esperança em chão rachado. E assim, a fé se transforma em procissão. O povo caminha pela estrada de terra. Alguns descalços. Outros carregando velas e promessas. Há quem puxe bendito:
“Ó Mãe da Ponta D’Água,
escutai nossa oração,
vós que sofrestes na seca,
sede abrigo e proteção.”
O cortejo avança devagar. Poeira sobe sob os pés. O sol já não parece tão cruel. Porque ali há fé. Ao longe, o túmulo simples surge entre a vegetação rala. Alguém chora. Alguém agradece. Alguém pede chuva. Alguém pede cura. E todos entendem que aquela mulher anônima se tornou símbolo.
Símbolo da dor nordestina.
Símbolo da injustiça humana.
Símbolo da justiça divina.
A procissão termina, mas a fé continua. Porque no sertão, a seca pode castigar o corpo mas jamais consegue matar a esperança. E a Santa da Ponta D’Água permanece, como água invisível brotando no coração do povo.









