Retornando ao Grupo de Acesso I, o GRESV União da Gávea apresentou o enredo que levará para a avenida no Carnaval Virtual 2026.
De autoria de Clay Gommez, a agremiação homenageia Clóvis Bornay através do enredo “Evoé, Clóvis! – Um olhar carnavalesco sobre o mestre das fantasias”.
Confira a sinopse do enredo:
Evoé, Clóvis! – Um olhar carnavalesco sobre o mestre das fantasias
”Os olhos levemente puxados, os trejeitos exagerados, a inconfundível língua presa e uma aura cintilante por onde passava eram apenas algumas das características mais marcantes de uma lenda do carnaval que viveu entre nós.” ( trecho inicial do livro: ”Entre o asfalto e a passarela – o olhar carnavalesco de Clóvis bornay.” Escrito por João Perigo em 2020.)
“O início de um sonho carnavalesco.”
Há figuras que não passam pelo carnaval — elas se tornam o próprio carnaval. Assim foi Clóvis Bornay, um artista cuja vida confundiu-se com o brilho dos paetês, a leveza das plumas, o tilintar dos cristais e o esplendor das fantasias que marcaram época. Nesta viagem poética pela memória da folia, o G.R.E.S.V. União da Gávea vem para a passarela virtual celebrar o homem que transformou o sonho em arte e arte em eternidade.
Nosso desfile começa onde nascem as lembranças: na serra fluminense. Em Nova Friburgo, um menino curioso descobria o encantamento das festas populares e dos carnavais de outrora. Filho de um joalheiro, Clóvis cresceu entre brilhos e pedras preciosas, fascinado pelo reflexo da luz que dançava nas vitrines da loja de seu pai. Cada faísca de brilho parecia anunciar um destino luminoso.
Ainda criança, ao chegar ao Rio de Janeiro, encontrou uma cidade que respirava carnaval. Nos bailes do Fluminense Football Club, o jovem folião viveu sua primeira consagração: aos 12 anos, vestido de Cossaco, venceu seu primeiro concurso de fantasias. Era o prenúncio de um reinado que atravessaria décadas.
O sonho ganharia asas no majestoso Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ali, inspirado nos grandes bailes e fantasias do carnaval de Veneza, na Itália, Clóvis convenceu o diretor geral do Theatro a criar um baile de fantasias de luxo. Surge então o deslumbrante “Príncipe Hindu”, sua criação, que arrebatou aplausos e revelou ao mundo um artista destinado à glória carnavalesca.
A partir desse momento, Clóvis Bornay tornou-se sinônimo de espetáculo. Nos salões do Copacabana Palace, do Hotel Glória, do Palácio Quitandinha, entre tantos outros, desfilavam imperadores, reis e príncipes — todos encarnados pelo mesmo artista. Cada fantasia era um monumento de luxo, pesquisa e imaginação. Tamanho talento fez de Bornay um vencedor quase invencível, tornando-se “hors concours”, pois já não havia rivais à altura.
“As várias faces de Clóvis Bornay.”
Mas Clóvis era mais do que brilho. Era também intelectual, pesquisador e guardião da memória. Como museólogo, ajudou a organizar o primeiro museu de arte sacra do país, no Museu Sacro da Venerável Ordem Terceira da Penitência. Entre imagens barrocas e resplendores dourados, nasceu uma inspiração que marcaria sua estética: as auréolas e ornamentos sagrados passariam a adornar suas fantasias, misturando religiosidade, arte e carnaval.
Homem de muitas faces, Bornay também cantou marchinhas, participou e marcou presença no lendário Cassino do Chacrinha e no Programa Silvio Santos. Na dramaturgia, integrou produções marcantes no cinema como Terra em Transe e Independência ou Morte!, enquanto na televisão divertia o público ao lado de Jô Soares no icônico Viva o Gordo!
Entre glórias e desafios, Clóvis também enfrentou preconceitos. Expulso de casa na juventude por sua orientação sexual, encontrou na amizade e na arte o caminho para se reconstruir. Tornou-se símbolo de resistência e orgulho, assumindo-se publicamente como “o gay mais chique do Brasil” e levantando a bandeira contra a intolerância em tempos difíceis.
“Bornay no carnaval e o universo das Escolas de Samba.”
Mas foi nas escolas de samba que sua criatividade encontrou nova avenida. Desfilando e criando para agremiações históricas, Bornay levou luxo e teatralidade aos carros alegóricos. No Acadêmicos do Salgueiro, reviveu a figura de Estácio de Sá em uma fantasia monumental. Na Unidos de Lucas, apresentou o inesquecível desfile “História do Negro no Brasil”, embalado pelo antológico samba “Sublime Pergaminho”.
Seu momento de consagração viria na Portela, quando apresentou o enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia” em 1970. Um espetáculo de cores, mitos e encantamentos que levou a azul e branca de Oswaldo Cruz ao título máximo, eternizando seu nome na história do carnaval.
Sua trajetória ainda cruzaria a Baía de Guanabara para brilhar nos carnavais de Niterói, onde ajudou escolas como a Unidos do Viradouro e a Souza Soares a escrever capítulos gloriosos na história da folia.
Os anos passaram, mas Bornay jamais abandonou o carnaval. Mesmo longe dos concursos e da criação de enredos, seguia desfilando como destaque de luxo, sempre elegante, sempre majestoso, como um rei que nunca deixa seu trono.
Em 2005, o artista despediu-se da vida. Seu cortejo final transformou-se em um último desfile: confetes e serpentinas acompanharam o som da imortal marchinha Ó Abre Alas, enquanto o samba da Portela ecoava como despedida. Assim partia o homem, mas permanecia o mito.
Hoje, a União da Gávea ergue seu estandarte para celebrar este gênio da fantasia. Entre memórias, brilhos e histórias, revisitamos sua vida como um grande baile carnavalesco — daqueles que Clóvis tanto amava.
Que chovam paetês prateados!
Que ecoem as marchinhas eternas!
Que o luxo da imaginação volte a reinar!
Porque no reino do carnaval, há um nome que jamais será esquecido.
Viva Clóvis Bornay!
Evoé, mestre das fantasias!
Clay Gommez
Enredista e Carnavalesco.
Fontes de pesquisas:
Livro: “Entre o asfalto e a passarela – O olhar carnavalesco de Clóvis Bornay.” (João Perigo, 2020)
Diário de notícias, 5820 de 28 de fevereiro de 1936, capa.
Jornal do Brasil, 95 de 23 de abril de 1964, págia 2.
Revista do rádio, 811 de 5 de novembro de 1965.
Revista Manchete, 925 de 10 de janeiro de 1970, página 41.
Tribuna de imprenssa, 4879 de 5 de fevereiro de 1966.
Diário de notícias, 13886 de 24 de fevereiro de 1968.
Jornal do Brasil, 261 de 8 de fevereiro de 1970.
Revista Manchete, 968 de 7 de novembro de 1970.
Revista Manchete,1033 de 5 de fevereiro de 1971.
Jornal O Fluminense, 21325 de 9 de março de 1973.
Jornal O Fluminense,21328 de 12 de março de 1973.
Revista Manchete, 1299 de 12 de março de 1977.
Jornal do Brasil, 309 de 13 de fevereiro de 1980.
Revista Manchete, 1872 de 5de março de 1988.
Jornal do Brasil, 315 de 19 de fevereiro de 1990.
Jornal do Brasil, 277 de 10 de janeiro de 1996.
Jornal do Brasil, 302 de 4 de fevereiro de 1996.
Araújo, H. Memórias do Carnaval. Primeira edição. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1991.
https://revista.memoriaslgbt.com/index.php/ojs/article/view/30
https://dicionariompb.com.br/artista/clovis-bornay/









