13ª colocada no carnaval 2025, o GRESV Império do Rio Belo apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo Especial 2026 do Carnaval Virtual.
De autoria de Marcos Felipe, a agremiação ecoará o canto das Minas Gerais com o enredo “Vissungo – canto da saudade”.
Confira a sinopse do enredo:
Vissungo – canto da saudade
Justificativa e introdução
O papel de uma Escola de Samba, vai muito além da dança propriamente dito, é amplificação de vozes, é ferramenta de saber, é fonte de cultura, é descortinar o véu do esquecimento e trazer para o conhecimento do grande público histórias, vivências, vozes e culturas muitas vezes silenciadas pela alva perspicácia daqueles que detém poder e possibilidade de mascarar a verdadeira história e se colocarem como heróis e/ou desbravadores de um Brasil que só existe em suas próprias mentes.
Para 2026 o Império do Rio Belo, entendendo seu papel e dever enquanto veículo de saber cultural, mergulha em suas mais internas origens. Vai buscar nos ecos sussurrados através dos ventos que sopram das Minas Gerais, a negritude do tempo de mineração, onde muito se fala das pedras, mas pouco se fala das mãos que garimparam toda a exploração. Traz de dentro das grutas, um Brasil profundo em cores e ritos, desenhando nessa avenida virtual, elos ritualísticos pretos por trás da mineração do ouro e de diamantes. Uma mistura de canto, dança e reza, na esperança de partilhar com todos a oralidade da resistência preta Bantu, da cultura Afro diaspórica que garimpou minas e pavimentou Minas. Se espelha nas representações mais antiga do povo preto aqui nas terras brasileiras através dos cânticos de congo, moçambique e ladainhas, que também serão retratados, para avançar sem esquecer do passado.
O Império do Rio Belo brada em forma de arte, memória e história de um povo que tem em suas veias os sussurros de fé que cruzaram o oceano em dias e noites sofridas, plantando bravura, brotando resistência, florescendo e frutificando um legado de força, coragem, sabedoria e acima de tudo, vida!
Que as vozes ancestrais guiem nossa escola. Que as vozes ancestrais sejam ouvidas em nosso cortejo. Que a fé de Zambi e Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos nos protejam, trilhando o caminho do alvorecer na dança da história.
“Trabaia, trabaia nêgo
Trabaia, trabaia nêgo!
A mina já não reconhece seu valor
Trabaia, trabaia nêgo
Pro canto esconder a sua dor…”
Elaborado pelo enredista
MINA
O tilintar das correntes trazia junto ao canto do galo o amanhecer de um novo dia. Antes mesmo que o sol pudesse levantá-los, lá estavam meus trabalhadores, escravizados, para caminharem serra adentro. A mina já esperava por mais um dia de labuta, nesta terra tão rica de pedras, de ambições e de sofrimento. Pedras que diziam valer muito, mas ninguém sabia. Enquanto a bateia balança nas águas turvas, enquanto a picareta bate no lombo da serra, se erguiam os arraiais de vilarejos de diamantes. Evocamos então, para nos guiar, toda a energia dessa terra por Nsumbu. Terra essa que embalou os corpos de todos os filhos que por ela pisaram em luta, terra essa que guiou a travessia das almas até Zambi quando do mundo físico partiram após árduo trabalho. Nossa forma de sobreviver era o cantar, o canto de quem insiste em não sucumbir, em não virar rejeito de mina, em se diferenciar das frias pedras. Pois cantemos! Cantávamos em um tom quase uníssono e inaudível em banzo.
BANZO
O banzo era o que nos restava. Somos negros retintos, retirados de nossas terras e misturados à sorte do trabalho. Volto navegando em minhas memórias, em busca de quem sente o abraço do seu mais velho, da alegria dos erês correndo pelo terreiro. De saudar a natureza, o sagrado em liberdade. De nossas famílias, da terra que sangrou nossa retirada. As águas da diáspora embalaram homens e mulheres acorrentados, pelo caminho doloroso tumbeiro à dentro, desde o porto até a senzala. Cantamos por aqueles que morriam na travessia, por aqueles que pereceram em dores, fome, peste. O que restava? Trabalho, sempre trabalho. E para tentar espantar a sina, sobrava eu… Ovisungo. Sou um de vocês, somos nós, o canto Bantu das minas.
“ia uê ererê aiô gombê
com licença do curiandamba,
com licença do curiacuca,
com licença do sinhô moço,
com licença do dono de terra”
CANTO
Sou o canto de labutar, pra pesar menos o trabalho. Sou canto de quem ainda sente a dor da escravidão. Sou o relógio que marca o tempo que não se conta, o tempo que passa pelas mãos calejadas. Sou canto que mostra quem está do mesmo lado do rio da vida.
Cantamos para diminuir o peso das pedras, para resistir contra as revelias de nossos capatazes. Em protesto pela vigilância do “sinhô moço”, para manter viva nossa origem. Entoamos, pois, nossas palavras-força para fazer feitiços contra os capitães do mato. Combinamos encontros por entre os campos de fuga, por nossas próprias lutas. Cantamos para sonhar com a liberdade, esperando que um dia ela chegue em nossas mãos e na esperança que nosso canto chegue aos céus e que nos leve bem pra longe, na eternidade.
“Muriquinho piquinino,
ô parente
muriquinho piquinino
de qui samba no cacunda
purugunta adonde vai
pru quilombo do Dumbá
ei chora-chora mgongo
ê devera chora, mgongo, chora (bis)”
Cântico de liberdade
REZA DANÇADA
Sou a reza pra se ouvir, ritual pra se comunicar. Uma procissão daqueles que temem em resistir, em meio ao bruto minério das montanhas de Minas Gerais. A fala que ressoa de Angola, daqueles que diziam que não sabiam rezar. Sou a ladainha que passa entre as gerações, sussurrando e melodiando a lida pelo ofício, que faz da dor sua prece. O pranto de quem não se cala.
Sou também agradecimento pelo cachimbo de ervas da preta velha, o alento aos filhos do Rosário, nossa grande mãe preta. Sou o canto que transcende, que vai de encontro aos ancestrais. Girando e girando, evocando nossos guias, rezando o “padre-nosso” enquanto ingoma dobra em chamado ao transe para nossos inkisi.
“Padre Nosso com Ave Maria
securo camera que tanazambê
tanazambê, ê
tanazambê, ah”
canto: Pade Nosso africano
Sou ginga construída pelos pés descalços em meio à água do rio e os pedregulhos da terra. Pelas estradas de chão batido, nos interiores dessa Minas Gerais, vamos batendo latas e guizos enquanto as fitinhas dançam ao vento. Somos caminhos de Congo e de Moçambique que abrem a roda pra nossa gente sambar! E saravando lá vem vovô, saravando lá vem vovó. Pega o terço, firma a bandeira no mastro e coroa seus reis. O corpo que canta, canta até não aguentar mais e repousa. Descansa da labuta, enquanto o canto-rezado fazia passar o tempo daqueles que ficavam. Sou canto da vida e da morte.
“minha mãe mandô me chamá
lá no pé de mulungu
oi de dia plantá bananera
oi de noite tocá caxambu
chora, ingoma aiá
(coro) ôôôô…
oia torna chorá iá (coro) ô, iáiáiá…”
Canto: Saudação à rainha
MEMÓRIA
O meu canto hoje? Ninguém sabe… Já não sou o mesmo de séculos atrás. Meus caminhos escritos, hoje dificilmente se acham. O que sobra é a resistência dos mais velhos em passar para suas gerações os cantos e rezas para perpetuar a história. Há a memória de cada quilombola, de cada crioulo mineiro que segue em união pelo seu axé, construindo frentes negras Brasil à fora. Mas a urbanização se mostra colonizadora do presente, querendo sufocar bandeiras e dizimar costumes e comunidades. Onde outrora eram terreiros, hoje erguem-se prédios de uma selva moderna. Meus cânticos perdem lugar para os tais sons do progresso, em nome daqueles que nem ao mesmo sabem o meu nome.
Que sigamos então em nossos cantos, pois o mais importante é cantar! Cantar para trilhar novas vilas e cidades. Cantar, para um amanhã de liberdade. Cantemos, então, para lembrar com saudade de nossas raízes mineiras. Que Clementina, Tia Doca da Portela, Nei Lopes, Mestre Ivo, junto de cada capitão de congo, continuem porta-vozes do canto dos escravizados, dos cantos de saudade. E hoje, o Império do Rio Belo se junta a nós, erguendo seu mastro verde e branco pela avenida virtual adentro. Para que continuemos a resistir e existir em cada cantar…
“Somos almas que se unem
Em corpos separados”
Opostos – Sambas que elas querem
“ô caxinganguelê
vai-se embora com Deus, com Deus,
com Deus vai-se embora com Deus”
Texto e pesquisa: Marcos Felipe Reis
Referências
AZEVEDO, Amailton Magno. O canto dos escravos: heranças centro-africanas na música contemporânea do Brasil. OPSIS (Online), Catalão, v. 16, n. 1, p. 238–251, jan./jun. 2016. DOI: 10.5216/o.v16i1.36694.
Confrafilmes. Vissungo – Fragmentos da tradição oral. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1HmSXcVqaWg. Acesso em 22 dez. 2025.
FREITAS, Neide; QUEIROZ, Sônia (org.). Vissungos: cantos afrodescendentes em Minas Gerais. 3. ed. revista e ampliada. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2015.
MANCINI, Felipe. Por que Vissungos? FELIPE MANCINI [online], 24 jul. 2025. Disponível em: https://felipemancini.com.br/por-que-vissungos/. Acesso em: 30 dez. 2025.
SILVEIRA, Ian Pablo Furtado Goulart da. Os vissungos recolhidos por Aires da Mata Machado no álbum “O canto dos escravos”. [S.l.: s.n.], [20–].
QUEIROZ, Sônia (org.). Vissungos no Rosário: cantos da tradição banto em Minas. 3. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2016. ISBN 978-85-7758-289-1.
RODRIGUES, Thaís. Você já ouviu falar sobre os vissungos? Clique aqui para entender a importância e influência da cultura desses povos. CONAQ, 13 mar. 2025. Disponível em: https://conaq.org.br/voce-ja-ouviu-falar-sobre-os-vissungos-clique-aqui-para-entender-a-importancia-e-influencia-da-cultura-desses-povos/. Acesso em: 23 dez. 2025.









