Recanto do Beija-Flor irá trazer Lucas José d’Alvarenga para o Carnaval Virtual 2026

Após a 6ª colocação no carnaval 2025, o GRESV Recanto do Beija-Flor apresentou o enredo que levará para a disputa do Grupo Especial no Carnaval Virtual 2026.

De autoria de Alberto dos Santos de Lemos, a agremiação irá defender o enredo “Motes e glosas do Oriente, das letras e das paixões”.

Confira a sinopse do enredo:

Motes e glosas do Oriente, das letras e das paixões

Mote

Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
de Sabará ao mar da China,
hoje o canto faz história.

Primeira glosa – O menino das Minas e a luz das letras

Antes do mar, houve a montanha.
Antes do governo, houve o estudo.
Antes da glória disputada, houve a luz.

Das terras de Minas emerge o jovem Lucas José d’Alvarenga, filho de um universo em que a educação não era apenas um adorno de distinção, mas também um instrumento de ascensão, disciplina e refinamento. Cercado por gramáticas, preceitos, música, dança, cálculo, lógica e retórica, ele se forma como expressão de um ideal ilustrado: o homem que deve compreender o mundo para nele intervir. É o instante em que a escola faz de Sabará e de Coimbra uma só paisagem imaginária: de um lado, a terra que o viu nascer; do outro, a cultura que o legitimou. Nessa dobra entre colônia e metrópole, nasce aquele que mais tarde ousaria escrever a própria memória contra o apagamento.

Glosa:

Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
na cartilha do destino,
já nascia a sua história.

Segunda glosa – Rotas do império, sedas do Oriente

Logo oficial do enredo

Todo homem de letras, em certos tempos, era também chamado ao mundo.

Quando Lucas parte para o Oriente português, sua vida deixa de caber apenas no gabinete e entra no compasso largo das monções, dos arsenais, dos vice-reis, dos carregamentos e das rotas mercantis. Goa e Macau deixam de ser nomes distantes e tornam-se paisagens concretas de sua existência. É ali que o saber enfrenta a geografia, o cálculo enfrenta o risco e o império revela sua face mais móvel, mais ambiciosa e mais instável.

Goa surge como a sala dourada do império no Oriente: palácios, arquivos, igrejas e jardins. Macau desponta como porto delicado e turbulento, cidade de conflito, suspensa entre a diplomacia, o comércio e a vigília. Lucas não chega ao Oriente como aventureiro romântico. Chega como homem que estuda, se prepara, lê documentos, recolhe notícias, procura compreender a máquina que irá servir.

Glosa:

Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
nas correntes do Oriente,
viu comércio, viu glória.

Terceira glosa – Macau sitiada, memória em combate

Mas o mar não conduz apenas riquezas.
Traz também disputa, ameaça e sombra.

Ao chegar a Macau, Alvarenga encontra um território marcado por tensões. A presença inglesa, os conflitos de autoridade e a ação dos piratas chineses compõem uma atmosfera de instabilidade permanente. Os canais se tornam espaços estratégicos; a cidade, um tabuleiro sensível; o governo, uma corda esticada entre o gesto político e o risco militar. Nesse cenário, Lucas assume a figura do governante em prova. Entre papéis e canhões, seu nome se liga à reação contra os piratas e à defesa de Macau. 

Mas há aqui uma camada ainda mais bela: essa vitória é também uma vitória escrita. Porque o Lucas que combateu é o mesmo que depois narrará. O homem de Estado dá lugar ao memorialista. O fato histórico converte-se em disputa de memória, contra a versão dos fatos contada por seus opositores. 

Glosa:

Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
vencendo o medo das águas,
quis vencer na escrita a história.

Quarta glosa – O poeta, o amante, o romancista

Depois do estrondo, a palavra.
Depois do governo, a invenção.

De volta ao Brasil, Lucas aprofunda a face literária de sua trajetória. Não é mais apenas o administrador ultramarino. Agora se impõe o autor: poeta de muitas formas, tradutor, memorialista, homem de improviso e sensibilidade, figura de passagem entre convenções herdadas e novas inflexões subjetivas. É o momento de revelar o escritor plural. O tradutor de Safo. O poeta amoroso. O autor em cuja obra também comparecem o erotismo, a musicalidade, o improviso, o brilho formal e uma subjetividade que já pressente novos tempos. As alas podem aqui respirar mais intimidade: jardins de papel, musas clássicas reinventadas, jogos entre vela e luar, tinta e pele, lira e bandolim, biblioteca e alcova, sonho e composição. Em 1826, Lucas José d’Alvarenga publica Statira e Zoroastes, o primeiro romance brasileiro, obra dedicada à Imperatriz Leopoldina e considerada uma transição entre o arcadismo e o romantismo no Brasil. 

Glosa:

Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
duzentos anos depois,
o romance é nossa glória.

Encerramento

No fim, fica o que sempre ficou para os autores que recusam desaparecer:
o verso.
o nome.
a lembrança.

E a avenida responde:

 Entre a pena e o timão,
fez da vida uma memória;
de Sabará ao mar da China,
A Recanto faz história.

Lucas José d’Alvarenga foi um brasileiro nascido em Minas Gerais, de origem modesta, cuja trajetória reúne muito do que foi o mundo luso-brasileiro entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. Sua vida atravessa a formação em Coimbra, a passagem pelo Oriente português, o retorno ao Rio de Janeiro e, por fim, a tentativa de garantir para si um lugar na memória por meio da escrita. Foi poeta, romancista, tradutor, memorialista e homem de governo. Uma figura de transição, situada entre o espírito ilustrado de seu tempo e uma sensibilidade literária que já apontava para o romantismo. Não por acaso, ele próprio dizia que o diplomata hábil precisava ser “homem de Letras, homem do Mundo, e homem d’Estado”. A frase soa como um retrato de si mesmo.

Depois de anos de estudo no Brasil e em Portugal, Alvarenga partiu, em 1806, para Goa, como ajudante de ordens do conde de Sarzedas, o 48º vice-rei da Índia. Goa foi, para ele, uma espécie de portal: um lugar de passagem, aprendizado e preparação. Ao chegar, foi nomeado governador de Macau, embora sua escolha tenha sido questionada por conta da pouca experiência administrativa. Ciente disso, fez o que parecia mais natural ao seu perfil: estudou. Examinou documentos da secretaria em Goa, leu obras militares sobre ataque, defesa e fortificações, e buscou entender tanto a história de Macau quanto suas tensões políticas. Antes de governar, quis compreender. Esse detalhe diz muito sobre ele.

Quando assumiu Macau, em 1809, encontrou um cenário delicado. A região estava sob a ameaça dos piratas chineses, que comprometiam a circulação pelos canais, o comércio e a segurança do território. Ao mesmo tempo, a presença inglesa pesava sobre o equilíbrio político local. Seu governo foi, portanto, marcado por instabilidade, urgência e disputa. A autoridade do governador era limitada pela força do Senado e pela atuação do ouvidor Miguel de Arriaga Brum da Silveira, com quem Alvarenga entrou em choque. Seu período em Macau foi atravessado não só por ameaças externas, mas também por conflitos internos em torno do poder e da legitimidade.

Ainda assim, Alvarenga ligou sua memória pública a dois feitos que considerava centrais: o combate aos piratas e a retirada dos ingleses. Mais tarde, publicou três livros de memórias, entre 1828 e 1830, nos quais tratou principalmente de sua atuação em Macau e procurou defender seu papel nesses acontecimentos. Para ele, escrever era também corrigir a história. Ao saber da publicação de uma obra, em 1824, que narrava os fatos de Macau sem lhe dar o devido destaque, sentiu-se atingido e respondeu com sua própria versão: a “Memória sobre a expedição do governo de Macao”, seguida do “Artigo adicional à memória” e, depois, das “Observações à memória”. Há nesse gesto algo de ressentimento, mas também uma consciência clara de que narrar os fatos era uma forma de disputar a posteridade. Não bastava ter feito; era preciso deixar registrado.

De volta ao Rio de Janeiro, Alvarenga já não ocupou posição de grande relevo na administração pública. Foi na escrita que encontrou, então, um novo centro para sua vida. E é nesse momento que sua trajetória ganha outra dimensão. Além das memórias, publicou, em 1826, “Statira e Zoroastes”, obra dedicada à imperatriz Leopoldina e considerada por alguns estudiosos um marco importante na formação do romance no Brasil. Também publicou “Poezias”, livro que reúne sonetos, improvisos, vilancetes, madrigais, epigramas, cantigas, odes e ditirambos. Mais do que uma obra uniforme, esse conjunto parece refletir toda uma vida de escrita, desde a juventude até a maturidade.

Sua poesia revela um autor em trânsito entre épocas. Em seus versos convivem traços do arcadismo e sinais de uma subjetividade mais intensa, que já se aproxima do romantismo. Na poesia amorosa, percebe-se uma voz mais pessoal, mais emotiva, mais voltada para o eu. Em alguns sonetos, o erotismo aparece de forma marcada, construído por imagens, contrastes e metáforas que exploram o desejo, a imaginação e a tensão entre intimidade e exposição. Ao mesmo tempo, sua obra dialoga com a performance, com a musicalidade e com o improviso, aproximando-se de formas poético-musicais que circularam amplamente no Brasil. Isso faz de Alvarenga uma figura importante para compreender um momento de transição na literatura brasileira, logo após a independência.

A sinopse adota a forma de mote e glosa, estrutura poética cara a Lucas José d’Alvarenga, muito presente em “Poezias” e afinada com o ambiente dos saraus cariocas do início do século XIX, dos quais ele participava. Essa escolha não é apenas formal: ajuda a aproximar o enredo da pulsação literária do próprio autor.

Mais do que resgatar uma figura histórica pouco lembrada, nossa proposta busca recolocar Lucas José d’Alvarenga em movimento, dentro de um tempo marcado por viagens, trocas, disputas e projetos de futuro. Sua trajetória também permite lançar luz sobre as redes de comércio e comunicação entre as possessões portuguesas espalhadas pelo mundo, relativizando a ideia de um Brasil colonial isolado de tudo, pelo menos a certa altura da história. Ao mesmo tempo, sua obra abre espaço para uma reflexão bastante atual: a esperança de que um país nascente pudesse se construir acima dos interesses privados obscuros, valorizando o conhecimento, a técnica e uma administração pública orientada pelo bem comum.

Author: Lucas Guerra

Share This Post On